domingo, 10 de novembro de 2019

Oferecer a Outra Face

Diversas frases que pronunciamos nos dias atuais, foram ditas há dois milênios, pelo Mestre de Nazaré. Algumas, tornaram-se ditos costumeiros, entre muitas pessoas: 
“- Que atire a primeira pedra aquele que estiver sem pecados…”  Comumente usamos essa passagem quando queremos nos desculpar ou perdoar alguém por alguma falha.
- Reconhece-se a árvore por seus frutos…” Aqui, quando no intuito de algum elogio ou crítica ao tipo de educação dada; 
“- Mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha…” Quando queremos criticar os ricos que sentem dificuldade na partilha de seus bens…

Muitos de nós nos apoiamos nas passagens dos evangelhos para justificar nossa forma de pensar, falar e agir no mundo. 

Problema está quando destes textos retiramos alguns fragmentos, ignorando contexto e profundidade, apenas para atacar, marginalizar, excluir, etc. À nós, Espíritas fica o alerta para este perigo a respeito de uma prática nefasta, presente em diversos lugares.

Neste despretensioso artigo, pretendo relembrar outro pensamento bastante utilizado pelas pessoas, pronunciado também por Jesus, durante uma pregação, conhecida como Sermão da Montanha. A passagem está registrada no evangelho de Lucas, no capítulo 06, versículo 29:  "Se alguém bater em você numa face, ofereça-lhe também a outra.” 

“Mostrar a outra face” quando alguém nos bate, como muitos outros ensinamentos trazidos pelo Cristo, não carrega um sentido literal, mas figurado. Assim como não devemos (literalmente) arrancar um olho que seja motivo de escândalo, até porque um olho não causa um escândalo, mas, metaforicamente, nossa maneira de enxergar o mundo e reagirmos a ele, isso sim! 


Se alguém nos bate, temos o dever de nos afastar, de nos defender de alguma maneira, impedindo o agressor de continuar com sua ação. Aliás, se trata de algo instintivo. Entretanto, cabe aqui uma diferença capital: Defender-se não significa revidar, vingar-se, agredir.

Defender-se é, dependendo da situação, do momento, afastar-se, se proteger ou mesmo neutralizar o agressor, quando possível. 

O que fazemos, porque assim aprendemos durante milênios, é reagir (no mínimo) na mesma proporção: fazemos acontecer o famoso “olho por olho, dente por dente” - lei antiga que Jesus reformou, quando trouxe à baila um Deus amoroso e um caminho de educação e medicina de almas, onde o revidar deve sair de cena, abrindo espaço para uma resposta bem mais funcional e efetiva, mostrando uma possível “outra face” da situação apresentada. 

Na Oração pela Paz, hoje conhecida como “Prece de Francisco de Assis”, encontramos a  busca pela prática desta passagem evangélica:

“Onde houver ódio, que eu leve o amor;
Onde houver ofensa, que eu leve o perdão.
Onde houver discórdia, que eu leve a união.
Onde houver dúvidas, que eu leve a fé.
Onde houver erro, que eu leve a verdade.
Onde houver desespero, que eu leve a esperança.
Onde houver tristeza, que eu leve a alegria.
Onde houver trevas, que eu leve a luz…” 

Mostrar a outra face é retornar àquele que traz um pensamento, uma ação no mal, algo de bom. É acalmar onde existem ansiedades, calar onde existem fofocas, abençoar onde acontecem maledicências. 
Mostrar a face de Deus em casa gesto, diminuindo o ego, sempre que possível.

Professor Hermógenes, conhecido Yogue de nosso país, costumava dizer que é preciso “humildar-se”. Isso porque o termo “humilhar-se” para ele soava como “rebaixar-se” a um nível desnecessário. Humildar-se, porém, significa diminuir o ego, perceber-se como se é: um ser incompleto e ainda cheio de imperfeições e, a partir deste saber, seguir trabalhando os traços de personalidade que nos atrapalham, sem ódios contra si, tampouco projeções de raiva no mundo. 

Humildar-se seria o "mostrar a outra face", levar à luz o aspecto real da alma imortal, criação de Deus. 

Humildar-se é perceber-se como um ser interdependente, respeitando todas as formas de vida e, ao mesmo tempo, saber-se de natureza divina, como tudo o que é. 


Somente quando nos humildamos, conseguimos mostrar algo bom diante das ignorâncias do mundo - como já dizia Jesus (e muito antes de Hermógenes). Só quando estamos na posição dos humildes (os primeiros bem aventurados em seu Sermão) é que podemos, realmente, mostrar a verdadeira face do amor - único caminho para um mundo melhor, que tanto ansiamos. 

E, como já dito em muitas tradições de espiritualidade, a mudança do mundo começa em nós. Sigamos!


sexta-feira, 21 de junho de 2019

Compaixão, Sempre!

“Não julgueis e, de modo algum sereis julgados; 
não condeneis e de modo 
algum sereis condenados. Absolvei e sereis absolvidos.”
Lucas 6:37


Herdamos de nossos antepassados os genes que nos correspondem na formação de nossos corpos e suas tendências, tendo nosso períspirito como molde para tal. Para além da cor dos olhos ou dos cabelos, da textura da pele ou do formato da nossa boca, os genes também operam nos órgãos internos, além de contribuírem para a eclosão de determinadas enfermidades, quando necessário. De caráter multifatorial, a diabetes tipo 2, por exemplo, nos pede uma carga genética que é passada por nossos parentes diretos, para que possa surgir, geralmente na meia idade. Com a esquizofrenia não é diferente: ela só ocorre quando existe informação genética para tal, ou seja, quando algum familiar (tio, tia, mãe, pai, etc.) seja esquizofrênico. 
Quando falamos de doenças multifatoriais estamos querendo dizer que não basta tão somente a genética para seu surgimento, mas serão preciso outros fatores, sejam eles ambientais ou emocionais.  
Já sabemos que os fatores ambientais exercem grande influência para o desenvolvimento da doença genética herdada - doenças comuns como obesidade, diabetes e hipertensão, que tem características poligênicas (produzidas pela combinação de diversos fatores ambientais, do estilo de vida e mutações em vários genes, geralmente de diferentes cromossomos) dependem fundamentalmente da contribuição do meio ambiente para que sejam desenvolvidas. Assim, o fator hereditário pode ser neutralizado, desde que a pessoa seja conhecedora dos fatores de risco que envolvem a sua herança genética e tenha hábitos saudáveis, assim como um campo emocional com certo equilíbrio.
Não é incomum escutarmos pessoas dizendo: “Meu filho puxou ao pai, vive resmungando pela casa...”Levando em conta que o conceito “puxou ao pai” diz respeito a uma possível herança genética, cabe dizer que isso não procede. Não “puxamos”, ou melhor, não herdamos geneticamente nossos padrões de comportamento, porém eles nos são transmitidos através dos exemplos e das palavras. Esta verdade é demasiada importante, visto que muitos dos possíveis catalizadores de doenças (modo de sentir, pensar e agir no mundo) são tão somente passados pelos nossos ancestrais através da convivência e poderiam ser evitados, fosse o sistema saudável sob o ponto de vista emocional/espiritual.

Por tudo o que foi detalhado até aqui já se pode inferir que não existe um só ser humano fazedor dele mesmo, seja por seus aspectos físicos, mas também psíquicos e comportamentais. Só somos em relação, o que quer dizer que tanto influenciamos como somos influenciados, o tempo todo. 
Sendo assim, a ideia do “self-made-man” (tão difundida nos EUA) ou seja, aquele que consegue vencer sozinho, é irreal. 


Dentro da Psicologia sistêmica sabe-se que não é possível compreender o sujeito sem analisa-lo dentro do sistema onde está inserido, primeiramente seus laços familiares, mas também nos outros ambientes em que transita, no mundo.  

Sendo assim, uma pessoa nascida em berço espírita, classe média, que cursou escolas razoáveis, foi apresentada à doutrina cristã, que tem pais amorosos, relações saudáveis, com colocação de limites de maneira assertiva e que chegou a fase adulta enfrentando desafios comuns sempre com apoio e fé robusta, terá grandes chances de se tornar uma pessoa com certo equilíbrio emocional, ego fortalecido e comportamento equivalente ao mundo íntimo. Será aquilo que chamamos de “homem de bem”, pelo senso comum.
Já a criança que nasceu na periferia, dentro de um grupo marginalizado porque pobre e de escassos recursos, cujos pais, também desequilibrados dentro de um sistema que se ancora em comportamentos agressivos, que não souberam acolher, cuidar, dar afeto, que frequentou escolas públicas de ensino deficiente, que assiste ao crime com tanta frequência que este se torna algo banal, de cotidiano, sem nenhuma fé apresentada, obviamente terá pouca ou, dependendo de sua bagagem espiritual, nenhuma chance de conseguir equilíbrio, harmonia íntima para deixar boas pegadas no mundo. Sua vulnerabilidade é tanta que, diante da acidez do mundo, o chamado do mal, fruto da ignorância em que está mergulhado, é o único que lhe faz algum sentido. 

Nos presídios do nosso país, a maioria esmagadora dos detidos é de origem humilde, com baixa ou nenhuma escolaridade, de pele negra ou parda. A que se deve este “surto” do crime somente com pessoas deste perfil? Sabemos que entre muitos ricos existem falcatruas, desvios, “jeitinhos” de burlar a lei. Acontece que as tais leis humanas são feitas, prioritariamente para encarcerarmos, na maior parte das vezes, as pessoas que fazem parte desta camada social. Sendo assim, se com graduação, já terás direito a uma cela especial, por exemplo. 


Podemos então nos perguntar porque uma pessoa que nasce em um lar com recursos, embora talvez não seja punido pelas leis dos homens, comete crime. Como quase tudo no mundo, trata-se de uma questão multifatorial, assim como boa parte das doenças do campo físico. Por vezes no lar existe dinheiro, mas raras demonstrações de afeto. Em outros casos, violência, drogadição, ou mesmo corrupções de toda ordem. Como já dizia o espirito Albino Teixeira, através do Médium Francisco Cândido Xavier, “A palavra inclina, mas o exemplo, arrasta.” 

E nós outros? Se estamos trilhando uma encarnação com alguma “tranquilidade”, se já conseguimos encontrar o sentido de nossas vidas, buscando realizar o melhor, dentro de nossas possibilidades, como devemos encarar a questão dos crimes, os criminosos do mundo?

Se pautados em nosso juiz interior, nosso eu-crítico, formado em nossa infância através das falas e ações dos adultos mais próximos e significativos, iremos julgar, sem piedade, nem nenhuma compaixão, pois nos achamos acima, superiores, melhores que estes outros. 
Com um olhar raso, no estilo “causa única para tal efeito” diremos que o sujeito é um bandido porque é do mal ou porque é um vagabundo, encostado. E nisso trataremos de encaixar todos aqueles que se opõem ao que acreditamos como parte dos bons valores e costumes. Alguns julgarão – também de maneira dura - os que nem criminosos são, mas apenas “diferentes” em algo que entendem como sendo correto, tais como os homossexuais, os negros, os pobres, etc. 

Vale lembrar que o discurso “bandido bom é bandido morto” é apoiado por 50% da população brasileira, segundo dados da pesquisa conduzida pelo Instituto Datafolha. Boa parte acredita que a solução para a diminuição da criminalidade é agir com violência e despejam um discurso bastante raivoso e de ódio.

Então, eis a pergunta: - Diante deste fenômeno (do crime), como procederia Jesus?

Não será difícil encontrarmos respostas para tal indagação. Basta analisarmos a vida e a obra do Mestre:


  • Quando precisou escolher os amigos que acompanhariam sua missão, foi até os pobres, os simples e com eles conviveu e ensinou; 
  • Durante sua trajetória na Terra tratou de responsabilizar, denunciar e combater os religiosos hipócritas que usavam seu poder político e institucional para enriquecerem, enquanto julgavam e apedrejavam os ditos “impuros” pela Lei;
  • Acolheu mulheres, pobres, marginais, doentes de toda ordem, defendendo-os, sem descanso;
  • Quando diante do julgamento popular, indicou que atirasse a primeira pedra aquele que estivesse sem pecados;
  • No final, quando pregado na cruz junto a dois malfeitores (criminosos), um deles implora: “Senhor, tende piedade de mim...” E a resposta de Jesus foi: “Em verdade te digo que ainda hoje estará junto de mim no Paraíso...” 
  
Poderíamos destacar muitos trechos dos evangelhos onde Jesus exerceu piedade para com os malfeitores. 

Dentro deste caminho, certa vez falou Chico Xavier: Emmanuel costuma dizer que o criminoso é sempre um de nós que foi descoberto.”

Isso porque não existe aquele que é desprovido de sombras íntimas, de encrencas internas. Sob o ponto de vista das Leis de Deus não há quem não seja criminoso. 

  • Se alimenta de maneira pouco saudável? Consome alimentos que são fruto de escravidão, dor e morte?
  • Fuma? Bebe? 
  • Conta alguma mentira?
  • Deseja alguém comprometido? Comete adultério, mesmo que em pensamento?
  • É agressivo no trânsito, em casa, no trabalho?
  • Deseja o mal de alguém?
  • Não consegue perdoar algum evento ou pessoa? 

Como se pode perceber, sob o olhar do amor divino, não há quem não seja devedor na Terra. Mesmo que estes crimes não sejam passíveis de alguma punição pela lei dos homens. Aliás, a lista acima poderia ser muito maior, sabemos.

Interessante é que o paradoxo está justamente no fato de que, quanto mais evoluída a alma, maior sua compaixão para com aqueles que ainda não aprenderam a amar. 
Aqui temos, de maneira clara, o conceito de “projeção” proposto por Freud: Quanto maior (e mais negada) a sombra, maior o julgamento e ataque aos outros. 

No “Livro da Esperança”, cap. 33, novamente é o Espírito Emmanuel quem explica:

Perante o companheiro que te parece malfeitor, silencia e ampara sempre. (...) Muitos daqueles que tombaram na indisciplina e na violência, acabando segregados nas casas de tratamento moral, guardam consigo os braseiros da angústia que lhes foram impostos, em dolorosos processos obsessivos, pelas mãos imponderáveis dos adversários desencarnados de outras existências. E quase todos os que esmoreceram no caminho das próprias obrigações, rendendo-se ao assalto da crueldade e do desespero, sustentaram, por tempo enorme, na intimidade do próprio ser, a agoniada tensão da resistência às forças do mal, sucumbindo, muitas vezes, à mingua de compreensão e de amor... Para todos eles, os nossos irmãos caídos na delinquência, volvamos, assim, pensamento e ação tocados de empatia, recordando Jesus, que não cogita de nossas imperfeições para sustentar-nos e certos de que também nós, pela extensão das próprias fraquezas, não conseguimos em verdade, saber em que obstáculos do caminho os nossos pés tropeçarão.”

Todos estamos dentro da grande Lei, que nos impulsiona à evolução. Todos um dia já caímos ou ainda cairemos, já que imperfeitos, neste momento da trajetória. 
E todos um dia seremos perfeitos, como o próprio Mestre.  


Sobre isso escreveu Leon Denis: “Todas as almas são perfectíveis e susceptíveis de educação; devem percorrer os mesmos caminhos e chegar da vida inferior à plenitude do conhecimento, da sabedoria e da virtude. Não são todas igualmente adiantadas, mas todas hão de subir, cedo ou tarde, as árduas encostas que levam às radiosas eminências banhadas da eterna luz”.

Compreender, não julgar e amparar os caídos do caminho, constitui tarefa inadiável a todos, a todo momento, em qualquer lugar.

Somos capazes de fazer crescer a compaixão em nossos corações. Para isso é preciso retirar os véus da ignorância, encarando, de maneira consciente, os meandros sociais, psíquicos e espirituais da humanidade. Feito isso, rapidamente percebemos que existem muitos fatores na gênese dos comportamentos criminosos        . 

E, embora por vezes a pessoa não possa usufruir da liberdade, por algum tempo, por conta dos riscos, ainda assim, devemos acolher, compreender e, se possível, ressocializar... jamais julgar e matar.

Eis o que Jesus nos ensinou.



Referências Bibliográficas:

XAVIER, F; O Evangelho por Emmanuel – comentários ao evangelho segundo Lucas; coordenação de Saulo Cesar Ribeiro da Silva – 1 edição; Brasília: FEB, 2015.

DENIS, Léon. Cristianismo e Espiritismo: provas experimentais da sobrevivência. Trad. de Leopoldo Cirne. 14. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.

______. O problema do ser, do destino e da dor: os testemunhos, os fatos, as leis. 28. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.

KARDEC, A; Evangelho Segundo o EspiritismoTrad. de Guillon Ribeiro da 3. ed. francesa rev., corrig. e modif. pelo autor em 1866. 124. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004.
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segunda-feira, 15 de abril de 2019

Em Tempos de Crise

“Embora a dor e o pranto, não permitas
Que a tua fé sublime se abastarde...
Abraça a luta e segue para a frente,
Antes que seja tarde”.
Espírito João Coutinho *


“É de notar-se que, em todas as épocas da história, as grandes crises sociais foram seguidas de uma era de progresso.” (Allan Kardec, 1868).


Os bons Espíritos nos alertaram para o fato de estarmos deixando para trás um período de provas e expiações para adentrarmos, dentro de alguns séculos, em um novo patamar. O Planeta segue seu ritmo, nos convocando a mudanças, cada vez mais rápidas. Inegável a percepção de que tudo se acelerou, o cotidiano por vezes se apresenta em um ritmo frenético. E, entregues a uma rotina sobre-humana, sem muita reflexão a respeito, temos adoecido.
O número de pessoas acometidas por problemas mentais é alarmante. Mas, não só! Nosso planeta reclama sobre os desvarios humanos, com a extração dos recursos naturais, de maneira infinita, em um orbe finito. 
Justamente por estarmos neste descompasso entre o que temos feito de nós e do mundo e o que precisamos fazer (urgentemente), temos presenciado crises de todas as ordens, do  indivíduo à sociedade e natureza. 
Primeiro importante busquemos definir “crise” quanto ao seu aspecto temporal (quantidade de tempo) e de profundidade (qualidade e intensidade das emoções mobilizadas, dentro deste espaço de tempo).
Aqui a palavra crise, diferente do conceito da psicopatologia, onde é vista como algo de curta duração, embora de forte intensidade (Dalgalarrondo, p. 297), é colocada como um fenômeno que pode englobar um ou diversos fatos, variadas emoções atreladas à dor, durante um longo espaço de tempo. 
Certo é que, no nosso dia-a-dia, vivemos pequenos revezes, que podem ir desde uma dor de dente, um pneu furado, até uma resposta mal dada dentro do supermercado. Tudo isso pode trazer desconforto, porém momentâneo, podendo ser resolvido em pouco tempo. 
Já quando falamos em crise a situação tem um caráter de maior duração e intensidade. São aqueles períodos em que nos vemos acabrunhados, nos sentindo como que “sem rumo na vida”, muita vez chateados conosco mesmos, com Deus, com os outros, com a Vida, de forma geral. 

Então, quando falamos em crise estamos dizendo sobre um período de tempo na vida em que coisas difíceis acontecem (ou a forma como as vemos é distorcida), trazendo dores, angústias, medos intensos. 

- Não há caminhos!
- Parece que nunca mais serei feliz!
- Deus me esqueceu!?
- Não sei mais o que fazer!
- Nada de bom deve acontecer…

São frases comuns em tempos de crise…

No texto Luto e Melancolia, de 1915, Sigmund Freud comenta que a grande diferença entre luto e depressão é que, no luto existe a percepção de empobrecimento do mundo (que perde seu brilho), atrelado à dor. Já na depressão é a pessoa que perde seu valor, seu brilho. Portanto, nos lutos normais, vivenciamos a dor profunda, constante, que depois se torna intermitente, até que de possível gestão, enquanto que, na depressão a dor, além de profunda, traz o agravante de baixa autoestima, pouca valorização do eu no mundo, minando forças para a superação do processo.

Portanto, existem agravantes no campo emocional, quando falamos em crise. 

Quando em depressão, a pessoa terá maiores dificuldades para superar o momento vivido, estando ou não enlutada. Sobre isso poderia escrever um artigo a parte, mas ainda neste buscarei trazer caminhos, tanto para aqueles que perderam esperança no mundo como para os que perderam esperanças em si mesmo.

No Evangelho de João, em todo o capítulo 16, encontramos palavras de Jesus que trazem um RX exato daquilo que os discípulos teriam de enfrentar. Neste capítulo vemos o Mestre falando abertamente sobre os acontecimentos atuais e o porvir. Na verdade, naquele momento as coisas iam de mal a pior - apesar de todas as palavras benditas, de todas as curas e bençãos distribuídas durante seus três anos de contato com o povo, Jesus se sabia perseguido pelos religiosos da época; seus seguidores também eram ameaçados e toda uma obra parecia ruir aos olhos daqueles homens simples - mas não para o Rabi da Galiléia, que, possuidor de um olhar espiritual de máxima amplitude, sabia dos desdobramentos e da necessidade de que tudo se fizesse exatamente como foi.

Então, anuncia que deixaria a esfera material, voltando ao plano Espiritual, em breve. Podemos imaginar como ficaram aqueles pobres homens: deixaram suas famílias, suas profissões para seguir Jesus. Num tempo em que a espada era a lei, em que a religião se colocava na política, misturando-se totalmente. Propor algo que estivesse fora do status quo era considerado também um ato de insanidade. Como seria a vida deles, dali em diante?

E, a pior das notícias, diante do cenário: “Eu sai do Pai e vim para o mundo; agora deixo o mundo e vou para o Pai.” (16:28). Perseguição religiosa, povo dividido, dogmas antigos que conflitavam com o que acabaram de aprender… 
E aquele que cura, que acalma, que esclarece, que ama anuncia que está indo embora!
Como seguir sem a presença física de Jesus? 

Podemos inferir a angustia presente naqueles corações de boa vontade, mas de uma fé não tão robusta…

É Jesus, que os chamava amigos, quem também traz a consolação: “Digo que chorareis, mas a vossa tristeza se tornará alegria.” (16:20) “Vos verei novamente e vosso coração se alegrará e a vossa alegria ninguém tira de vós.” (16:22).

E, diante da dor e do espanto de todos, dá a receita, em poucas palavras:  “No mundo tereis provações, mas animai-vos, eu venci o mundo.” (16:33).


Vencer o mundo tem significado diferente de vencer no mundo. O primeiro conceito diz respeito a estar acima das tendências culturais que tendem a nos arrastar a uma vida antinatural, pautada no ganho, no consumo, do exibicionismo. Jesus foi um revolucionário na sua época: não se curvou às imposições do farisaísmo, combateu a soberba, lutou pelos oprimidos, acolheu os marginalizados. Jamais esteve em comunhão com aquilo que desaprovava em sua cultura. 

Vencer o mundo é algo como “estar em paz apesar de…” ou seja, conseguir respeitar as próprias necessidades, preservando-se do que faz mal. Já vencer NO mundo diz respeito a atingir um lugar de status, de poder - o que pode ser diametralmente oposto às necessidades do Espírito. 

Quando diante das vicissitudes, aquele que possui ferramentas para vencer o mundo é o que apresenta a fé firme, a ação positiva, a paciência constante e o foco no bem.

O benfeitor espiritual Emmanuel, na obra Palavras de Vida Eterna, psicografia de Francisco Cândido Xavier, capítulo 136 (Na Vitória Real), a partir deste trecho do evangelho de João, comenta que Jesus “reconhecia-se a poucos passos da morte, a que se inclinaria, condenado sem culpa. Entretanto, ele dizia: “tende bom ânimo; eu venci o mundo”. (p. 289). Depois, arremata: “Quando te encontres em crise, lembra-te do Mestre”. (p.289)

O que podemos pensar sobre essa frase de Emmanuel?

Lembrar Jesus, nas crises, será que significa orar a Ele, pedindo ajuda, como costumeiramente fazemos?

Sim, podemos orar, na certeza de que as preces serão ouvidas. Mas, isso basta?
Temos visto que não.

Lembrar Jesus é recorrer à Sua história de vida (Evangelhos/ campo  racional) e ao próprio coração (buscar Jesus na nossa alma, no campo dos sentimentos). 

Indo aos Evangelhos podemos encontrar diversas lições, que vão desde a paciência até o perdão incondicional, passando pela aceitação, mansuetude e caridade. 

Nos nossos corações podemos nos encontrar com a energia do Amado Mestre, compreendendo Sua magnitude e Amor pelas vias do sentimento. Pensar Nele, evocá-Lo e sentir Sua presença, Sua paz, Seu saber, sem nada raciocinar. 

E, junto de tais orientações, seja pelas vias da razão ou do coração, podemos inferir que as crises, sejam elas pessoais ou sociais, nos convocam a:


  • Perceber a qualidade de nossa fé: Ela está robusta? Existe a certeza da Guiança Divina, do bem em toda situação, mesmo nas mais terríveis? Estamos certos de que não existe injustiça no que a vida nos propõe, tampouco fato não necessário? 

“Todo aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as põe em prática, 
será comparado a um homem prudente, 
que edificou a casa sobre a rocha”. (Mateus, 7:24)


  • Exercitar a paciência: Revoltas, iras ou reclamações não resolvem, ao contrário, nos debilita ainda mais diante dos desafios. 

Bem-aventurados os que são brandos, 
porque possuirão a Terra". (Mateus, 5:5.) 
"Bem-aventurados os pacíficos, 
porque serão chamados filhos de Deus”. (Mateus, 5:9.)


  • Evitar a passividade diante da crise: muitos apenas lamentam e se encolhem, como caramujos em suas cascas. Importante a visão amplificada, o teste de realidade e o trabalho incessante no bem. 

Meu Pai trabalha até hoje e eu também!” (João 5:17)


  •  Realizar preces: Inegável a força da oração feita a partir das fibras do coração, do nosso campo emocional mais refinado. Logicamente receberemos o necessário para aurirmos forças, quando não a percepção de novos caminhos possíveis ou mesmo a dissolução do desafio. Tudo dependendo do que for melhor para nós. Jesus assim asseverou: 

“Pedi e se vos dará; buscai e achareis; batei à porta e se vos abrirá; 
porquanto, quem pede recebe e quem procura acha e, 
àquele que bata à porta, abrir-se-á.” (Mateus, 7:7) 


  • Destacar os pontos positivos no aqui e no agora: Buscar na mente o que de bom aconteceu no nosso dia, nos ajuda na diminuição de nossas ansiedades, trazendo a possibilidade de exercitarmos a gratidão. Olhar para as benção da Vida.  

"Olhai para as aves do céu, que não semeiam, nem segam, 
nem fazem provimentos nos celeiros; e, contudo, 
vosso Pai celestial as sustenta". (Mateus, 19:21)


  • Rever o nosso funcionamento mental: Muitos se comportam como crianças birrentas ou medrosas diante das crises. Outros como juizes severos, seja contra Deus ou contra a Vida, de maneira geral (pessoas, eventos, etc.). Somente nosso ego adulto, menos emocional e mais equilibrado pode conseguir resultados melhores. Acalmar para ter forças na jornada. 

Não julgueis, pois, para não serdes julgados; porque com o juízo que 
julgardes os outros, sereis julgados; e com a medida 
com que medirdes, vos medirão também a vós”. (Mateus, 7: 1-2).


  • Revisar nossa rotina: Por vezes queremos resultados diferentes fazendo as mesmas coisas. A vida, quando necessário, nos pede força para a mudança, tanto nos pensamentos e sentimentos como nas ações. Isso por vezes acontece através da dor.  Escolher a porta errada, os caminhos tortuosos, repetidamente, traz, obviamente, os mesmos resultados.

“Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta, 
e espaçoso o caminho que leva à perdição, e muitos são os que entram por ela. 
Que estreita é a porta, e que apertado o caminho que leva para a vida, 
e quão poucos são os que acertam com ela!” (Mateus, 7: 13-14).


  • Aceitar a impermanência das coisas: Muitos querem que o bom dure para sempre. Não compreendem que é preciso realizar o desapego, a aceitação para que o novo possa vir. Pensam e vêem as coisas apenas sob o ponto de vista material, esquecendo-se que somos almas em uma jornada humana, que nossa verdadeira vida está no mundo espiritual e que, por vezes abrir mão de elementos no hoje é essencial para ganhos maiores.

“Pois de que aproveitará ao homem, se ganhar 
o mundo inteiro e perder a sua alma?” (João, 12: 25).


  • Buscar a riqueza na dor: Importante identificarmos o que estamos aprendendo ou já aprendemos com as crises. Elas sempre surgem para nos impulsionar à evolução, jamais para nos aniquilar. Entendendo a didática Divina nos ajustamos melhor à vontade da Vida (que é a vontade de Deus) e deixamos as coisas fluirem, sem tanta resistência e sofrimento. Entender o que a Vida nos diz através do eventos é de suma importância e denota sabedoria. E, mesmo que não saibamos os porquês nos detalhes, sabermos que, seja lá o que for e como for, vem para nos fazer crescer.

“Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados. 
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos. 
Bem-aventurados os que padecem perseguição por amor 
da justiça, porque deles é o Reino dos Céus”. (Mateus, V: 5, 6 e 10).

Allan Kardec, na obra “A Gênese”, comentando sobre a nova geração que deve substituir a que forma o atual planeta de provas e expiações que habitamos, esclarece que “nesse tempo não se tratará mais de uma mudança parcial, de uma revolução limitada a uma região, a um povo, a uma raça; é um movimento universal que se opera no sentido do progresso moral.” (Cap. XVIII, p. 355). O codificador da Doutrina dos Espíritos, após levantar os dados enviados pelos Benfeitores da Espiritualidade, concluiu que, para que ocorra a transformação planetária  (e que certamente já está acontecendo) preciso será que uma nova ordem de Espíritos surja no cenário ou mesmo que os que aqui estão amadureçam no sentido moral. 

Portanto, as crises que nos parecem caóticas, são, em verdade, janelas para novas perspectivas, tanto sob o ponto de vista do indivíduo como nas coletividades.

Crises pessoais, familiares, globais estão acontecendo. Agora é a hora de seguirmos firmes, apoiados na nossa fé sólida, robusta, entendendo que somos trabalhadores da última hora e que, assim sendo, devemos nos colocar como obreiros da paz, a todo momento sendo que, a paz, efetivamente, começa em cada qual. 
Pois, também sobre isso falou-nos Jesus:

“O Reino está em vós!” (Lucas, 17, 21)

Cabe a cada um, encontrá-lo, na conquista imperecível do Espírito imortal.
Sigamos!







Referências Bibliográficas:

DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Editora Artes Médicas do Sul; Porto Alegre, 2000. 

FREUD, S. Luto e melancolia, 1917 [1915]. In: A história do movimento psicanalítico. Rio de Janeiro: Imago, 1996. p. 243-263. (Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, 14).

KARDEC, A. O Evangelho segundo o Espiritismo. Trad. de Guillon Ribeiro da 3. ed. francesa rev., corrig. e modif. pelo autor em 1866. 124. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004.
______. O Livro dos Espíritos: princípios da Doutrina Espírita. Trad. de Guillon Ribeiro. 86. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.

NOVO TESTAMENTO; tradutor Haroldo Dutra Dias; revisor Cleber Varandas de Lima; Brasília (DF); Conselho Espírita Internacional, 2010.


XAVIER, F.C. Palavras de Vida Eterna. Ditado pelo Espírito Emmanuel, 17a ed. Uberaba - MG - CEC. 1992.