domingo, 25 de julho de 2010

Moradores de Rua - invisíveis, porém concretos.

Moradores de rua – invisíveis, porém concretos.

06/01/08

por Claudia Gelernter

"As feridas da alma são curadas com carinho, atenção e paz."
Machado de Assis



Uma das mais significativas experiências que tive nesta vida foi a de poder participar de um grupo, em São Paulo, que semanalmente visita moradores de rua daquela cidade, levando-lhes alimentos, roupas e calçados, além de algumas palavras e carinho.

Nas primeiras oportunidades estive junto dos voluntários auxiliando-os apenas com minha mão-de-obra, carregando os alimentos ou separando as vestimentas ideais, pois queria aprender como realizavam aquela abençoada tarefa. Porém, devido ao meu espírito curioso, logo passei a levantar algumas hipóteses sobre as particularidades da vida do morador de rua: acreditava que o que mais os incomodava, naquele tipo de vida, devia ser o fato de não terem como tomar um bom banho ou por não conseguirem bons locais para dormir, estando expostos ao tempo, insetos, assim como a doenças variadas.

Como não desejava ficar apenas nas hipóteses, decidi entrevistar alguns deles e saber sobre suas histórias de vida, vontades, alegrias e dores. Fiquei espantada ao perceber que, se por um lado uma de minhas hipóteses estava correta (a de que boa parte deles chega até a situação de morar nas ruas devido ao alcoolismo), as outras todas estavam totalmente furadas: o que mais lhes entristecia era, na verdade, o fato de serem invisíveis para alguns ou tratados pior do que animais por outros. Tanto que um dos pontos levantados como sendo motivo de alegria foi o convívio com esses voluntários, pois são as poucas pessoas que lhes tratam como seres humanos.

Dentre as várias entrevistas realizadas, quero destacar uma que foi feita com certo pai de família, residente nos jardins da Praça da Sé, pois ela traz pontos que foram assinalados por muitos outros que vivem na mesma situação. Durante a pesquisa contou-me que tiveram grandes problemas em família antes de optarem pelas ruas, sendo que a situação piorou muito quando se deram conta de que a cada dia ficava mais difícil conseguir trabalho. Até que desistiram, pois o linguajar, odor e aparência não lhes abria nenhuma porta, muito ao contrário, retirava-lhes o mínimo de chance possível de algum sucesso.

O morador de rua relatou, entristecido, sobre a dificuldade que encontravam para serem reconhecidos como pessoas normais. Disse que o fato de serem tratados como se fossem invisíveis e em outros momentos como animais ou até mesmo como bandidos, os deixava muito contrariados, mesmo porque não roubavam nada de ninguém. Dizia ele: "Se fôssemos ladrões não precisaríamos morar nas ruas, pois teríamos ao menos uma pequena casa para viver".

Assim como a família deste homem, muitos outros passam pelas mesmas humilhações. Por que será que pensamos que aquelas pessoas não têm sentimentos, necessidades ou anseios?

Ellison, um homem negro, nascido nos EUA, escreveu, em 1965: “Eu sou um homem invisível. Não, eu não sou um fantasma como os que espantaram Edgar Allan Poe; nem sou eu de vossos ectoplasmas dos cinemas de Hollywwod. Eu sou um homem concreto, de carne e osso, fibra e líquidos – e de mim pode-se até dizer que tenho inteligência. Eu sou invisível, entenda-se, simplesmente porque as pessoas recusam-se me ver”.

Este triste fato que não ocorre apenas com negros estadunidenses, parece ter como causa as representações sociais, onde somos educados a compreender como sendo válido e bom apenas o que faz parte da cultura dominante. Tudo o que vem do “branco rico” é melhor, portanto todo o restante deve ser apagado, negado, ou explorado. Negros, garis, moradores de rua, serventes escolares, empregadas domésticas, favelados, pessoas do campo, etc., são alguns dos que participam dos números relatados no censo, avolumando aqueles dados estatísticos, porém, sem serem percebidos como seres vivos – pensantes - dentro da sociedade.

Eu mesma posso confidenciar a você que foi só a partir da primeira vez que estive com aqueles irmãos nossos que passei a me dar conta de como também não os enxergava. Era como se não existissem, a não ser que sua presença estivesse em algum lugar no caminho, atrapalhando o tráfego. Caso contrário eu não os percebia, não saberia comentar seus traços, muito menos suas vestes, mesmo que rasgadas ou mau cheirosas.

Com as experiências vividas naqueles momentos pude compreender alguns fatos importantes: o que menos preocupa um morador de rua é o alimento, mesmo porque são auxiliados por muitos desses abnegados tarefeiros da noite. Não sentem fome do pão, contudo têm fome de afeto, de consideração, de alguém que os escute. Não sofrem apenas pela ausência de casa ou de família, mas principalmente pela ausência de humanidade. Não lamentam o fato de estarem concretamente na miséria, mas a miserável forma de tratamento que recebem.

Penso que se vez ou outra alguém lhes dirigisse a atenção, desejando saber deles o que levam em seus corações, suas vidas seriam menos doloridas.

4 comentários:

valeriaterena disse...

Muito concretos e, ultimamente, nem tão invisíveis assim.
O número de moradores de rua tem aumentado assustadoramente, de maneira bastante perceptível.
Ontem, durante a corrida do Centro Histórico, vi moradores de rua alojados em pequenas barracas ao lado da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco.
Hoje pela manhã, numa esquina da Av. Dr. Arnaldo vi uma moradora sendo socorrida - ela estava caída, acho que inconsciente, e uma mulher pedia ajuda pelo celular - acho que a mulher que pedia ajuda deve ser ou do HC, ou da Fac. de Medicina ou da Saúde Pública (órgãos que tem por ali). De qualquer modo fiquei impressionada com a magreza da moradora de rua, praticamente pele e osso. Caída no chão, provavelmente inconsciente.
Na volta pra casa, início da tarde, vi uma coisa ao mesmo tempo triste e engraçada. Um morador de rua, na esquina da Henrique Schaumann, deitado, coberto por um cobertor xadrez,que colocou à sua volta, como uma cerca, várias garrafas de champanhe vazias com flores (como vasos), e passando de uma à outra, um festão em forma de folhas. Ele criou uma "casa" toda enfeitada em pela calçada.
Te deixo a interpretação disso, só te digo que não deixou de me comover a atitude de alguém que tenta em plena rua criar um ambiente aconchegante para si.
Beijos,
Valéria

Sérgio disse...

:)
Esse contato diretamente com eles é transformador. São seres humanos com suas histórias jogados à margem, ao esquecimento, descaso. Paro por aqui se não vou escrever um livro hahahaha

grande abraço

:D

Claudia CEAK disse...

Valmônica, obrigada pela super contribuição com tua experiência.
Primeiro vemos que para ti eles estão longe de serem invisíveis. Isso porque teu olhar está humanizado.
ESta pessoa que tenta criar algo de belo para si, indcependente de onde e como, é alguem, um Espírito com vontades, anseios, demandas, como qualquer um de nós. Se diferencia dos outros moradores quando demonstra recursos internos capazes de alterar algo a sua volta. Lindo ver isso, mas por outro lado existe a solidão nisso tudo... e como diria Madre Tereza de Calcutá, a maior pobreza está em não ser amado... ela sabia das coisas, viveu sua vida com estes abandonados do mundo... e quanto amor deu... quanto amor...

Sinto que o numero destes irmãos esteja aumentando. Mas não há como ser diferente, pelo menos por agora, enqusno inseridos num sistema como o nosso...
Triste.

Sabe, isso me traz uma reflexão. Que minhas orações desta noite, neste final de domingo, será também para eles.

Que Deus nos ajude.

beijos e ótima semana!
Cau

Claudia CEAK disse...

Serginho, bem vindo!
Sei que se envolve com este assunto...
pode escrever à vontade! Adoro suas reflexões!

Como está indo de estágios? Tem feito estágio com o Geison?

super abraço e ótima semana!!!