segunda-feira, 1 de maio de 2017

A Ignorância Sobre Nossa Natureza Divina e as Pedras que Atiramos

Advirto-te, quem quer que sejas, 
Oh! Tu que desejas sondar os Arcanos da Natureza,
se não encontras dentro de ti aquilo que procuras,
tampouco o poderás encontrar fora.
Se ignoras as excelências da tua própria casa,
como poderás encontrar outras excelências?
Em ti se encontra oculto o Tesouro dos Tesouros.
Oh! Homem, conhece-te a ti mesmo
e conhecerás o Universo e os Deuses”
Texto inscrito no patio do Templo de Apolo, Delfos (Grécia)
A frase acima, embora muitas vezes tenha sido atribuída ao filósofo Sócrates, na verdade está inscrita na entrada do Templo de Apolo, local mundialmente famoso, na cidade de Delfos, na Grécia. 
Nesta cidade foi construído um Oráculo bastante conhecido, que ao longo dos séculos foi consultado por muitos personagens importantes da história, incluindo Alexandre, o Grande.
Lá, as famosas sacerdotisas, chamadas de Pítias (ou pitonisas), respondiam as perguntas de forma enigmática, em versos, como os que lemos nos livros Ilíada e Odisséia, de Homero. Segundo pesquisadores elas o faziam sob o efeito de um gás específico que fluía através das rachaduras no solo. Seja lá como for, o que se sabe é que muitas guerras começaram e também foram evitadas por conta das profecias.

Mas não é apenas na Grécia que encontramos o importante aforismo “Conhece-te a ti mesmo”. Também no antigo templo de Luxor, no Egito, estava escrito “O Corpo é a Casa de Deus: Homem, conhece-te a ti mesmo!”

Cabe dizer  que este aforismo tão citado, não vem sozinho, mas antes está cravado no meio de outras frases também importantes, que lhe emprestam um sentido mais positivo, sagrado e profundo.

Fala sobre desvelarmos o divino que habita em nós, fala sobre a excelência da nossa casa espiritual, do tesouro maior que carregamos em nós, pois estamos totalmente fundidos e repletos do divino.

Este é, portanto, o ponto principal a ser destacado no texto: já somos amor, paz e felicidade, sob o ponto de vista dos gregos e egípcios antigos. Também para a cultura védica (nascida no Vale do Indo, cerca de 4500 anos atras, através dos livros chamados de Vedas) nós só sofremos porque não sabemos quem somos, realmente. Não nos damos conta de nossa essência espiritual Quando nos identificamos com o aspecto material da existência, dizem eles, sofremos, pois estamos transitando longe da nossa real natureza, que é o próprio Deus. Para os hindus o ego traz dor e desarmonia, pois se percebe destacado do Todo, independente, necessitado de coisas materiais, reconhecimentos e poder. 

Para os Cristãos que estudaram os Evangelhos do Cristo, não é diferente. Jesus afirmou: “Sois Deuses”. Disse, ainda, que se tivermos fé que poderíamos fazer o que ele fez e muito mais… e ainda arrematou a questão, comentando que o Reino está em nós…

Sidartha Gautama, o Buda, não transitava longe destes preceitos. Dizia que quando atingimos o estado de iluminação cessam todos os sofrimentos, sendo que este estado é o de completa consciência de pertencimento, de união e paz. Uma experiência intensa,  difícil de se expressar através das palavras.

Mas, se na essência mais profunda somos o divino, por que ainda agimos dentro de um padrão profano?

Por que evitamos o sagrado e nos apegamos ao efêmero, ao orgulho, ao egoísmo?

Possivelmente por ignorarmos nossa real condição de filhos de Deus, e por acreditarmos erroneamente que a vida deve se sustentar em três falsos pilares: o materialismo, o individualismo e o consumismo. 

Ainda precisamos dos erros para chegarmos aos acertos. Estamos experimentando até compreendermos o melhor caminho. Sob este ponto de vista, está tudo certo, entretanto nos cabe este despertar, pois,  com baixa auto-estima seguimos pelo Planeta fazendo muitos estragos.

Aliás, há quem diga que baixa auto-estima seja o maior problema da humanidade, desde sempre. Isso faz sentido quando compreendemos que a falta de amor próprio nos leva a atitudes que desembocam em maiores problemas, tanto para nós como para outros, além do meio ambiente. Dentro dos variados processos de auto-sabotagem, vemos na base deles ora remorsos antigos, ora pensamentos/sentimentos orgulhosos e até mesmo egoístas. 

Vejamos alguns exemplos: 

A pessoa crê-se inferior por ter cometido erros no passado e então pauta sua vida na infelicidade (não se entende como merecedora de felicidade), fazendo escolhas equivocadas, relacionando-se com pessoas que não a valorizam ou deixando de abraçar atividades ou ações que façam bem a ela. São aquelas pequenas escolhas de cotidiano que vão nos falando sobre seu psiquismo: a qualidade e quantidade de alimentos no prato, o escasso ou excessivo tempo para o sono, o sedentarismo, o uso de entorpecentes, relacionamentos tóxicos, etc.

Outro exemplo comum: por falta de autoconhecimento, a pessoa com tendência ao orgulho, busca rebaixar outros, apontando falhas ou criando supostos problemas no caráter nas pessoas, para tentar dar conta de uma angustia muita vez inconsciente, nascida dos desejos obscuros que ela mesma possui. Por exemplo, pessoas que possuem o desejo de trair e deslocam para o(a) parceiro(a) o problema, com enormes crises de ciúmes, acreditando-se traídos. Ou ainda os que gostariam de abandonar a forma de viver atual, deixando de seguir determinados padrões, e então criticam acidamente as escolhas daqueles que caminham sem as amarras sociais. 

A questão aqui muita vez é inconsciente e a este processo Freud nomeou Projeção. Projetamos nos outros aquilo que não suportamos em nós mesmos. Vê-se, portanto, que na base existe uma questão capital: a baixa auto-estima. Não aprovamos nossos desejos, eles nos incomodam, então lançamos ao mundo o que há em nós.

Hoje cedo estava lendo uma postagem de um amigo que está em lua-de-mel na Índia. Como descrição nas lindas imagens, comentou: "Sim, Nova Délhi é mesmo uma cidade de trânsito caótico, profusão de cores e sagrado por todos os lados. Mas, também há muito verde, uma infinidade de árvores e pássaros, e pessoas sempre sorridentes." 
Percebe-se que costumamos destacar da realidade aquilo que melhor nos corresponde. Não foi a toa que o próprio Freud comentou que quando Pedro fala de Paulo, sabemos muito mais sobre Pedro que sobre Paulo...

Aliás, vale dizer que, historicamente, somos prodigiosos na arte de criarmos sofrimentos. Ainda dentro da questão da projeção, vemos um desfilar de ataques, que muitas vezes desembocaram em brigas, até mesmo em morte ao longo dos milênios.

Só no antigo testamento elencamos 18 situações em que deveríamos matar pessoas por apedrejamento, caso trilhassem fora dos padrões estabelecidos pela religião, no caso, o judaísmo. Vejamos:

Bestialidade cometida por homem.
Bestialidade cometida por mulher.
Blasfêmia
Relações sexuais com uma virgem comprometida.
Relações sexuais com enteada.
Relações sexuais com mãe.
Relações sexuais com madrasta.
Amaldiçoar os pais.
Instigar indivíduos à idolatria.
Idolatria.
Instigar comunidades à idolatria.
Necromancia.
Sacrificar o próprio filho ao deus Moloch.
Homossexualidade.
Pitonismo.
Rebeldia dos filhos contra os pais.
Desrespeitar o shabat (descanso no sábado).
Bruxaria.

 Vamos direto às fontes:

Sobre adorar outros deuses que não o judaico, em Deteuronômio Dt 13:7-11, lemos: “Se seu irmão, filho de seu pai ou de sua mãe, ou seu filho, sua filha, ou a esposa que repousa em seus braços, ou o amigo íntimo quiser seduzir você secretamente, convidando: ‘Vamos servir outros deuses’ (deuses que nem você nem seus antepassados conheceram, deuses de povos vizinhos, próximos ou distantes de você, de uma extremidade da terra à outra), não faça caso, nem dê ouvidos. Não tenha piedade dele, não use de compaixão, nem esconda o erro dele. Pelo contrário: você deverá matá-lo. E para matá-lo, sua mão será a primeira. Em seguida, a mão de todo o povo. Apedreje-o até que morra, pois tentou afastar você de Javé seu Deus, que o tirou do Egito, da casa da escravidão. E todo o Israel ouvirá, ficará com medo, e nunca mais se fará em seu meio uma ação má como essa." 
Em Levíticos,  Lv 20 - “Todo israelita ou estrangeiro que habita em Israel e que sacrificar um de seus filhos a Moloc, será punido de morte. O povo da terra o apedrejará." 

Sobre separações por perda de virgindade antes do casamento, lemos em Deteuronômio Dt 22:13-25 -  "Se um homem se casa com uma mulher e começa a detestá-la depois de ter tido relações com ela, acusando-a de atos vergonhosos e difamando-a publicamente, dizendo: ‘Casei-me com esta mulher mas, quando me aproximei dela, descobri que não era virgem’, o pai e a mãe da jovem pegarão a prova da virgindade dela e levarão a prova aos anciãos da cidade para que julguem o caso. Então o pai da jovem dirá aos anciãos: ‘Dei minha filha como esposa a este homem, mas ele a detesta, e a está acusando de atos vergonhosos, dizendo que minha filha não era virgem. Mas aqui está a prova da virgindade da minha filha!’ E estenderá o lençol diante dos anciãos da cidade. Os anciãos da cidade pegarão o homem, mandarão castigá-lo e o multarão em cem moedas de prata, que serão entregues ao pai da jovem, por ter sido difamada publicamente uma virgem de Israel. Além disso, ela continuará sendo mulher dele, e o marido não poderá mandá-la embora durante toda a sua vida. Se a denúncia for verdadeira, isto é, se não acharem a prova da virgindade da moça, levarão a jovem até à porta da casa de seu pai e os homens da cidade a apedrejarão até que morra, pois ela cometeu uma infâmia em Israel, desonrando a casa do seu pai. Desse modo, você eliminará o mal do seu meio.
Se um homem for pego em flagrante tendo relações sexuais com uma mulher casada, ambos serão mortos, tanto o homem como a mulher. Desse modo, você eliminará o mal de Israel.
Se houver uma jovem prometida a um homem, e um outro tiver relações com ela na cidade, vocês levarão os dois à porta da cidade e os apedrejarão até que morram: a jovem por não ter gritado por socorro na cidade, e o homem por ter violentado a mulher do seu próximo. Desse modo, você eliminará o mal do seu meio. Contudo, se o homem encontrou a jovem no campo, a violentou e teve relações com ela, morrerá somente o homem que teve relações com ela;" 

O capítulo 20 do Livro de Levítico prevê hipóteses de pena de morte por crimes de incesto ou desrespeito à família. 

Falando sobre meduinidade, em Levíticos, Lv 20:27 está escrito que ”Qualquer homem ou mulher que evocar os espíritos ou fizer adivinhações, será morto. Serão apedrejados, e levarão sua culpa”. 

Ainda em Levíticos - Lv 24:10-16, sobre blasfemar contra Deus: "O filho de uma mulher israelita, tendo por pai um egípcio, veio entre os israelitas. E, discutindo no acampamento com um deles, o filho da mulher israelita blasfemou contra o santo nome e o amaldiçoou. Sua mãe chamava-se Salumite, filha de Dabri, da tribo de Dã. Puseram-no em prisão até que Moisés tomasse uma decisão, segundo a ordem do Senhor.” Então o Senhor disse a Moisés: “Faze sair do acampamento o blasfemo, e todos aqueles que o ouviram ponham a mão sobre a sua cabeça, e toda a assembleia o apedreje. Dirás aos israelitas: todo aquele que amaldiçoar o seu Deus levará o seu pecado. Quem blasfemar o nome do Senhor será punido de morte: toda a assembleia o apedrejará. Quer seja ele estrangeiro ou natural, se blasfemar contra o santo nome, será punido de morte." 

Novamente em Deteuronômio Dt 21:18-21, agora sobre filhos desobedientes: “Se alguém tiver um filho rebelde e incorrigível, que não obedece ao pai e à mãe e não os ouve, nem quando o corrigem, o pai e a mãe o pegarão e o levarão aos anciãos da cidade para ser julgado. E dirão aos anciãos da cidade: ‘Este nosso filho é rebelde e incorrigível: não nos obedece, é devasso e beberrão’. E todos os homens da cidade o apedrejarão até que morra. Desse modo, você eliminará o mal do seu meio, e todo o Israel ouvirá e ficará com medo." 

Já no Evangelho, acusado de blasfêmia, Jesus é ameaçado de apedrejamento:
 "As autoridades dos judeus pegaram pedras outra vez para apedrejar Jesus. Então Jesus disse: «Por ordem do meu Pai, tenho feito muitas coisas boas na presença de vocês. Por qual delas vocês me querem apedrejar?» As autoridades dos judeus responderam: «Não queremos te apedrejar por causa de boas obras, e sim por causa de uma blasfêmia: tu és apenas um homem, e te fazes passar por Deus."

Lembremos que somos herdeiros diretos desta cultura de exclusão e morte. Se por um lado o antigo testamento traz pérolas lindas, tais como o salmo 23 de David, também possui pontos complexos, ultrapassados e descabidos. 

Mas também sabemos que se trata de um estado transitório, até que venhamos a praticar o bem, o amor, sem falsas identificações com a materialidade da existência corpórea. Ainda precisamos dos erros para chegarmos aos acertos, então seguimos em frente, usando nosso livre-arbítrio, até aprendermos de vez quem somos e o que devemos realizar no aqui e no agora. 
Teremos atitudes descabidas até encontrarmos o caminho do equilíbrio.

Aliás, num destes clássicos casos de estupidez humana, lemos no evangelho segundo João, no capítulo 08, que certa vez Jesus fora procurado por um grupo de fariseus e escribas que pediam o apedrejamento de uma mulher, dita adúltera. Jogando-na perto dele e aproveitando para ver sua reação diante da Lei mosaica, questionaram: "Mestre, esta mulher foi apanhada, no próprio ato, adulterando. E na lei nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas. Tu pois que dizes?” Segundo João, a intenção deles seria colocar Jesus em maus lençóis, para terem do que acusa-lo. Entretanto, após silenciar e riscar o chão com seu dedo, o Mestre levantou-se e disse: “Aquele dentre vós que estiver sem pecados, que atire a primeira pedra”. Foi o suficiente para despertar aquelas consciências para uma dolorosa realidade - a de que não há neste mundo quem jamais tenha realizado algum mal a si mesmo ou a outrem. Foram todos jogando as pedras, os mais velhos primeiro, e saindo, silenciosamente. No final, sobram Jesus e a mulher. Ele, voltando-se para ela, questiona: "Mulher , onde estão aqueles que te condenavam? “ “Se foram, Senhor”. “Também eu não te condeno. Vai e não peques mais…” 

A frase, repleta de sabedoria, ficou tão conhecida que ainda hoje é usada em inúmeras situações, tendo virado até tema de samba, na caneta do querido compositor Ataulfo Alves: “Atire a primeira pedra aiaiá, aquele que não sofreu por amor…” 

Condenar pessoas não é cabível, primeiro porque  nosso telhado é de vidro (vidro fino!). Segundo porque, quanto mais maduros espiritualmente, melhor compreendemos que tudo faz parte do nosso crescimento. Se Deus nos permite nosso livre-arbítrio, quem somos nós para negá-lo a outros?

Orientação sexual, raça, credo, opinião política, visão de mundo… nada deve nos fazer atirar pedras, jamais, sejam elas metafóricas ou não.
Nem mesmo quando estamos diante de criminosos!

Quando estamos na posição daquele que erra, o fazemos por ignorância.
Quando na posição dos que atacam aquele que erra, o fazemos por projeção (que também tem a ignorância como base);
Quando na posição do público, daquele que observa e ajuda na promoção da condenação e ataques, o fazemos pelos mesmos motivos.
Portanto, nos cabe muito cuidado e atenção, pois podemos rapidamente passar de uma posição à outra, em pouco tempo.

O melhor lugar para nós é e sempre será o da ponderação, da calma e compreensão.

Devemos observar, acolher, amar. 
Sim, isso não implica em deixarmos de imprimir um valor ao que vimos ou ouvimos. Podemos sim discordar ou concordar, até mesmo nos defender, afastar, mas não atacar, tampouco odiar o outro pelo que ele é ou representa.
Lembremos que a vida nos instrumentaliza, constantemente. E muito do que as pessoas fazem só o fazem por terem recebido estímulos ruins de outros ou ainda pela privação de amor.

Aliás, recordemos que somente o amor pode transformar pessoas, transformar o mundo. Só quando acolhemos o outro, entendendo que só sabem amar aqueles que receberam amor, podemos efetivamente alterar o rumo das coisas, positivamente. 

Finalizando, deixo aqui um trecho de entrevista do documentário francês HUMAN, parte 1, em que um assassino americano dá seu testemunho sobre sua aprendizagem a partir do acolhimento daquela que poderia ser sua maior inimiga na Terra. 

Que este video possa tocar seu coração, como tocou o meu. É o que desejo.




segunda-feira, 24 de abril de 2017

A Morte e o Sentido de Vida

Semana passada tive contato com uma pessoa querida que me disse ter "perdido o sentido da vida" por conta da morte do marido.
Comentou que ele era tudo para ela e que agora só restavam lágrimas e desespero.
Faz quatro anos que seu companheiro partiu.
Histórias como esta me chegam com certa frequência. Não é incomum acolher este tipo de fala, entre pessoas que vivenciaram a morte em seus lares.
Entretanto, com todo o respeito para com o sofrimento destas almas, me vejo no dever de apontar para um equívoco existencial, surgido da forma como alguns se vinculam no mundo, de como se relacionam com as figuras significativas (mãe, pai, marido, esposa, amigos, etc.).
Quando alguém afirma que o sentido da vida se perdeu por conta da morte de alguém, entendemos que toda a existência da pessoa que ficou estava fundamentada em um outro Ser. Ou seja, todas as fichas, esperanças e expectativas estavam fora de si mesmo.
Eis o perigo.
Nada do que está fora de nós é certeza de segurança. Isso porque o que é do mundo se altera, constantemente. Não há imutabilidade. Crer que só somos felizes porque o outro está conosco é apostar tudo o que se tem em um bilhete de loteria. Dificilmente conseguiremos viver em paz, afinal, o outro tem sua própria história, que seguirá seu curso, queiramos ou não... adoeçamos ou não.
Olhar para estes pontos facilita a construção de nossas ferramentas internas, capazes de nos ajudar a seguirmos adiante, apesar de tudo. Com ou sem aqueles que amamos.
Sim, eu sei...não é fácil. No começo a vida parece perder seu brilho. Isso é natural. Faz parte do luto. Porém, precisaremos continuar. Vamos elaborar esta perda e passaremos a reinvestir nosso amor no mundo.
Muito mais difícil tal elaboração quando não tivemos o imprescindível cuidado de cuidarmos de nós, de nossos sentimentos, de nossos objetivos existenciais. Quando não buscamos descobrir porque estamos aqui.
Perguntas como: "Quais são meus talentos?" "Como posso usá-los nesta vida?" "O que eu realizo para mim que me traz boas emoções/sensações?" "O que quero para meu futuro?" são fundamentais. E não devemos colocar o nome de familiares ou de outras pessoas nas respostas. Precisamos encontrar motivos e dons nossos, por nós e de nós para o mundo.
Por exemplo, quando me perguntam por que eu não gostaria de morrer hoje, respondo com um sorriso: "Não quero acompanhar a dona Morte, porque preciso terminar meu livro, quero visitar a Índia, o Tibet e o Nepal, além de terminar minha formação em Yoga, em Sistêmica e em Constelações. Ah! Também quero aprender muito mais sobre neurociência. Isso me ajuda muito. Ou seja - ela que me deixe por aqui mais uns 5 anos, pelo menos! Claro que falamos em tom de brincadeira, mas tudo isso é a pura verdade no que diz respeito ao que ainda pretendo realizar por mim e para o mundo. Eis o sentido da vida, por agora. Embora eu ame profundamente meu marido e filhos quero continuar aqui na Terra por diversos motivos importantes, porém não necessariamente ligados a eles. Amor não implica em dependência emocional. Ao contrário. Lógico que gostaria de estar ao lado deles em muitos momentos especiais, porém a estrada será trilhada por meus pés, são conhecimentos e vivências inalienáveis, dependem de mim, do meu esforço, desejo e dedicação.
Não devemos condicionar nossa felicidade, acreditando ser ela fruto do que as pessoas fazem por nós.
Felicidade verdadeira só existe quando conseguimos, apesar das dores do mundo, encontrar em nós mesmos o sentido para seguirmos adiante, na trilha da vida.
Claudia Gelernter

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Jesus Nasceu!

Se analisarmos fielmente as antigas escrituras e o calendário judaico, descobriremos que Jesus nasceu provavelmente no mês de setembro, durante a festividade de Sucot, também conhecida como a Festa dos Tabernáculos ou das Cabanas.

Porém, definiu-se comemorarmos a vinda do Cristo à Terra no mês de dezembro, no dia 25.

Este detalhe perde a importância quando nos deparamos com a grandiosidade do evento e de como ele repercute em nós, desde aqueles tempos.

E, então, respeitando as disposições da maior parte das comunidades cristãs nesta época, nos empenhamos em trazer reflexões acerca deste grande modelo moral enviado ao nosso Planeta.

Conta-nos Lucas que, naquele tempo, “César Augusto, o imperador, decretou que se fizesse um recenseamento de toda a nação. (Este recenseamento foi feito quando Quirino era governador da Síria). Exigia-se que todo mundo voltasse à sua terra natal, para se registrar E como José era da antiga família real de Israel, teve de ir até Belém, na Judéia, terra natal do rei Davi – viajando de Nazaré, da Galiléia para lá. Ele levou consigo Maria, sua esposa, que estava grávida. Estando ali, chegou a hora de nascer o filho dela; e ela deu à luz seu primeiro filho, um menino. Enrolou-o em um cobertor e o deitou na manjedoura, no estábulo aquecido para os animais, porque não havia lugar para eles, na hospedaria da aldeia.” (Evangelho de Lucas cap. 2: 1-7).

Na Roma antiga, o recenseamento era comum, com fins prioritariamente fiscais, para se descobrir quais seriam os potenciais pagadores de impostos nas regiões dominadas. Além disso, em alguns locais, o recenseamento também servia para que pudessem ser levantados o numero de jovens a serem convocados para o serviço militar. Como na Judéia o alistamento não acontecia, entendemos que as intenções eram, então, meramente financeiras.

José, o carpinteiro de Nazaré, que descendia de uma das importantes tribos judaicas, precisou caminhar longos e árduos 120 km junto de sua esposa Maria, então gravida do menino Jesus, até Belém, cidade natal do Rei David.

Devem ter levado mais de oito dias nesta exaustiva caminhada. Nas cidades do caminho, poucos ofereciam camas ou alimentos aos viajantes.

Quando chegaram a Belém, encontraram a cidade repleta de viajantes que, assim como eles, precisavam participar da recontagem romana.

Bateram em muitas hospedarias. Nenhuma vaga. Possivelmente, um dos responsáveis, vendo a situação daquela mulher, em gravidez avançada e muito cansada, ofereceu pequeno estábulo - um lugar aquecido para os animais pequenos, para que pudessem descansar.

Não existia outra possibilidade. José teve de aceitar a proposta.

Conduziu a esposa ao rude lugar e, estando lá, durante a madrugada, eis que nasce um lindo menino.

Esta imagem singela faz lembrar pequeno trecho de uma canção natalina:

“Num berço de palha nascia Jesus
Um meigo menino envolto de luz
Num rude presépio, à noite, em Belém,
Enquanto as estrelas brilhavam, além”.

O momento é impressionante. Um paradoxo. Aquele que João Evangelista narrou como sendo o que “estava no princípio com Deus, o verbo eterno por quem foram feitas todas as coisas, o criador sem o qual nada do que foi feito se fez”, não teve sequer um quarto em uma pequena casa para vir ao mundo terreno. Veio em condições complicadas, sem um mínimo conforto.

As profecias anteriores a ele, escritas 800 anos antes de seu nascimento, comentavam que o Messias seria identificado por ser um servo humilde, por se situar junto aos pobres, marginais e pecadores.

Não existia lugar, há 2000 anos, para Jesus, nas hospedarias.

E hoje, ainda hoje, em muitos corações não encontramos lugar para Ele.

Nas grandes cidades, nas favelas esquecidas e renegadas, nas ruas mal cuidadas e imundas das periferias, nos fundos de hospitais públicos, muitas mãezinhas recebem seus filhos sem auxilio algum, sem um mínimo de dignidade. Muitas delas sem a companhia do pai da criança [criança esta que, em muitos casos, sequer poderá ter um futuro].

Enquanto isso, não muito distante dali, tantos outros comemoram o Natal refastelando-se com comidas variadas e bebidas alcoólicas, com presentes caros, corre-corre, brigas em família, violência no trânsito, explorações em lojas... e, com o coração vazio, sem Jesus a lhes preencher a existência.

Entretanto, mesmo com 2000 anos de atraso, podemos alterar este quadro.

O menino meigo, que nasceu em Belém, numa noite de festa no céu e de belezas na Terra é o mesmo que, estando na Casa de Zaqueu, o cobrador corrupto de impostos, afirmou: “Hoje a salvação entrou nesta Casa!”.

É o mesmo que, no ápice de seu trabalho entre nós, convidou: “Vinde a mim vós que estais cansados, pois eu vos aliviarei!”

É o mesmo que, amparando a mulher adultera, disse: “Eu também não vos condeno. Vá e não peques mais!”

É o mesmo que, no belíssimo sermão da montanha, nos informou: “Bem aventurados os puros de coração, pois verão a Deus!”

Palavras sublimes, que nos trazem esperança. Palavras que transcorreram mais de 20 séculos, a nos informar que Sim! Podemos alterar nossas disposições e sermos melhores, mais felizes, com Jesus.

Quando os pastores das redondezas avistaram o anjo que lhes apareceu a fim de anunciar a chegada do menino Salvador, ouviram, logo após, cânticos celestiais, que, em coro, diziam:

“Glória a Deus nas alturas, Paz na Terra e boa vontade aos homens!”

Paz na Terra! - anunciaram os anjos.

Mas , vejam, é preciso haja boa vontade entre os homens!

Ah! Precisamos de paz!
Sem ela, como a harmonia? Como a tranquilidade nas atividades diárias?

E, como conseguirmos a tão almejada e necessária paz?

Como termos a paz no mundo sem a paz intima, resultado da execução das lições excelsas trazidas pelo Mestre?

Como a paz na Palestina milenária, na Síria destruída, no Congo esfomeado, se nós, irmãos que somos de judeus, de árabes, de chineses ou africanos, não somos pacíficos sequer em nossos lares? Se não temos paz nos nossos pensamentos, nas nossas ações?

Como a paz se ainda carregamos a espada da língua afiada, atingindo os corações do caminho?

Como a paz, se distribuímos as granadas do preconceito, as dinamites do escárnio, as ogivas da cólera, os mísseis do desprezo?

Como a paz se não rompemos com a corrente do ódio, da mágoa, do rancor?

Jesus nasceu! E, com ele o caminho, a verdade e a vida.

Jesus é mesmo o salvador, quando o entendemos como aquele que trouxe a proposta salvacionista, que nos arrebata de nossas inferioridades, quando as observamos e lutamos contra elas, no bom combate... o combate pelo amor e com amor.

Jesus nasceu! E nós ainda não o acolhemos em nosso lar, em nossos corações.

Vamos trazer Jesus para nossas vidas!

Precisamos falar sobre Ele às nossas crianças, em nossos lares. Contar seus contos, sua vida, sua luta. Dar à nossa família a oportunidade de conhecerem o maior modelo moral que já esteve entre nós.

Isso é Natal!

Jesus nasceu! Paz na Terra!
Trabalhemos por ela!
Boa vontade, irmãos!
Paz em nós...

Claudia Gelernter

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Jesus e a Parábola do Semeador

 Segundo os evangelistas,  Jesus teria contado um total de 40 parábolas ao povo de sua época. 
Dentre elas, a parábola do semeador é considerada “a parábola das parábolas”, não somente porque Jesus a teria explicado (interpretado) aos seguidores, mas também por sua importância, seu conteúdo e aplicações.

Conta-nos o Novo Testamento, que certa vez, estando à beira do Mar da Galiléia, Jesus decidiu falar a uma multidão. E para isso, decidiu entrar uma embarcação, enquanto os outros ficaram na beira do Tiberíades. Lá estando, começou, dizendo:

"O semeador saiu a semear; e quando semeava, uma parte da semente caiu à beira do caminho, e vieram as aves e comeram-na. Outra parte caiu nos lugares pedregosos, onde não havia muita terra; logo nasceu, porque a terra não era profunda, e tendo saído o sol, queimou-se; e porque não tinha raiz, secou-se. Outra caiu entre os espinhos; e os espinhos cresceram, e sufocaram-na, e não deu fruto algum. Mas outras caíram na boa terra e, brotando e crescendo, davam fruto, um grão produzia trinta, outro sessenta e outro cem. Disse: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça."  (Marcos 4:3-9).

A parábola do Semeador trata não da agronomia física, mas da agronomia metafísica, trata do terreno imprevisível do livre-arbítrio humano, onde nenhum semeador sabe, ao certo, se a semente será germinada e, o sendo, se chegará a dar frutos e novas sementes, como nos explica Humberto Rhoden, no livro "Sabedoria das Parábolas” 

Importante destacarmos o fato de que os resultados de uma semeadura ficam a cargo de muitas variáveis, todas fora do nosso controle. Por certo ela fala sobre as verdades da grande Lei Divina, a Lei de Deus. 

Mas não somente deste tipo de sementes está abastecido o nosso coração. E disto falaremos mais adiante.

Cabe iniciarmos dizendo que muitos acreditam possuir as sementes da Boa Nova, através das escrituras dita sagradas, mas quando passam a semear, o fazem com imposição, com ameaças e violência. São aqueles religiosos que, mesmo tendo lido que Deus é amor e Pai de todos nós, afirmam que somente sua religião pode salvar alguém. Afirmam-se cristãos, ou seja, admitem que Jesus trouxe uma nova proposta para o velho testamento, mas, dependendo das suas intenções, passam a usar apenas o antigo livro como medida para seus julgamentos. 

Por exemplo, é verdade que no Antigo Testamento existe a proposta de julgamento severo aos infiéis,  aos homossexuais, aos ladrões, etc., chegando ao absurdo de condenação por apedrejamento. Também lá está escrito que devemos matar cordeiros para que ele pague pelos nossos pecados, ou mesmo que devemos matar pombas antes e após a menstruação para nos purificarmos (no caso das mulheres). Entretanto com Jesus aprendemos que Deus é um Pai Amoroso e que devemos acolher a todos, orientando aqueles que desejam encontrar um novo rumo e que nem tudo o que julgávamos ser errado, de fato o é. Sabemos que o Mestre não condenou ninguém, mas, após a ajuda pontual, afirmava apenas: "Vá é não peques mais…” 

Jesus revogou o que era de caráter humano, e ratificou o que era de inspiração de divina. Quando Jesus inicia suas observações dizendo “tendes ouvido o que foi dito aos antigos”, está se referindo a Moisés. E quando afirma: “eu porém, vos digo”, está modificando a legislação mosaica para uma visão de caráter universalista e perene.

Porém, existem os que estudam estas palavras e mesmo assim, de acordo com seus interesses, voltam os olhos para o que foi escrito mais de 1500 anos antes, pois naquele livro está contido um meio melhor de controle e dominação.  

Do antigo testamento,  Jesus destaca o amor a Deus acima de todas as coisas, registrado em Deuteronômio (6:5) e ao próximo como a nós mesmos, em Levítico (19:18). Quando o Mestre proclama que ali estão a Lei e os Profetas, deixa bem claro que os dois mandamentos sintetizam o que de melhor há naquela obra.

Semeadores atados ao ego que deseja domínio, poder, por vezes semeiam muito mais a divisão que a união. Semeiam a ruptura, o afastamento, a exclusão. Jamais estes resultados poderiam ser fruto das verdades imutáveis do Criador. 

O mesmo Jesus comentou que podemos reconhecer a árvore por seus frutos, aliás. 

E este mesmo problema pode se dar no meio espírita quando os pretensos semeadores começam a usar a ameaça do umbral (quase sempre com muita doçura em suas palavras) àqueles que não agem conforme  está escrito os livros da Doutrina. Os muitos que acreditam que apenas os Espíritas podem despertar no mundo espiritual com alguma lucidez, sendo prontamente amparados pelos bons espíritos.… Existem, ainda, os que criticam outras religiões, acabando por incorrer no mesmo erro, por ser este um padrão de ruptura, de afastamento. 

Nestes casos fica claro que o problema não está na religião em si, mas na interpretação dos seus semeadores. Por certo a semente divina é pura e verdadeira, mas quando ela passa pelo solo dos corações humanos passa a sofrer mutações. Deixa de ser a semente do sagrado para se tornar a semente interpretada, condicionada aos desvios do ego humano. 

Para Cairbar Schuttel, em seu livro de nome “Parábolas e Ensinos de Jesus”, “A semente é uma só, é sempre a mesma que tem sido apregoada em toda parte, desde que o homem se achou em condições de recebê-la. E se ela não atua com a mesma eficácia em todos, deriva esse fato da variedade e das desigualdades de Espíritos que existem na Terra; uns mais adiantados, outros mais atrasados; uns propensos ao bem, à caridade, à liberalidade, à fraternidade; outros propensos ao mal, ao egoísmo, ao orgulho, apegados aos bens terrenos, às diversões passageiras.”

“Estamos incumbidos de preparar o reino do bem que Jesus anunciou. Daí a necessidade de que a ninguém seja possível interpretar a lei de Deus ao sabor de suas paixões, nem falsear o sentido de uma lei toda de amor e de caridade.”  - alertou-nos Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, na questão n. 627.

Percebamos, portanto, que existe grande responsabilidade por parte dos que ensinam nos templos. Vale citar que Jesus condenou veementemente os religiosos hipócritas, chamando-os de cegos que conduziam cegos…

E podemos ampliar o conceito de semeadura, indo para as ações diárias dos semeadores, seus exemplos, suas palavras, seus pensamentos e sentimentos, em todos os momentos. Daí que podemos afirmar, junto com Kardec, que não se espera que o Espírita seja um santo perfeito, mas que ele se esforce, diuturnamente, em sua melhoria interior. 

Que  busque cuidar dos aspectos físicos, alimentando-se com responsabilidade, cuidando da própria saúde com consciência, sem uso de alimentos ou substâncias prejudiciais ao corpo; que cuide de suas relações, seja na família, no trabalho, com amigos ou, em sua comunidade, trabalhando pela melhoria dos ambientes onde transita. Que busque melhorar os aspectos da própria espiritualidade, ou seja, que busque elevar-se para além das coisas mundanas, do mundo terreno, respirando os ares do amor universal, buscando a própria transcendência. Por fim, que cuide de seus aspectos psíquicos, da forma como percebe, se impacta com a realidade da vida e de como interage com ela. 

Aquele que lê, compreende e aceita que Deus está no leme, que não existem injustiças, mas colheitas e provas importantes, que compreende o seu papel no mundo a partir destas verdades imutáveis e universais, jamais se perde no desespero, na desesperança, na inconformação. Não sente ódio pelos que pensam diferente dele e segue no mundo, semeando, incessantemente, ciente de que cabe à Vida e não a ele transformar os solos do mundo, tornando-os aptos para o nascimento e frutificação das árvores de amor.

A partir desta perceptiva, quero ainda destacar alguns pontos sobre o papel do  (bom) semeador.

1. Só semeia aquele que possui sementes. De quais sementes fala a parábola? 
Como dito antes, são as verdades divinas. Para nos tornarmos semeadores precisamos, antes de mais nada, nos abastecermos de sementes e de boa vontade. O sol, os ventos, as chuvas podem nos desanimar neste caminho. Devemos então nos munir da boa vontade, da perseverança, doando o que temos de mais sagrado: nosso tempo em prol da semeadura. Mas nada de proselitismo! Muito cuidado para não tentarmos violentar consciências! A verdade está em toda parte e pode (e deve) ser passada sem rótulos religiosos. Basta para tanto alguma cautela, empatia e simancol.
2. Semear implica em deitar uma semente no solo. Portanto, temos aí uma intenção clara, inequívoca de que esta semente germine, cresça em planta e gere frutos e novas sementes. Existe a intenção de continuidade de uma vida, uma ideia ou uma ação. Quando semeamos buscamos resultados. No Karma Yoga ensinam que toda ação deve ser voltada para o bem, mas que todo resultado deve ser respeitado, aceito, compreendido. Ou seja, podemos e devemos semear  coisas boas, entretanto, devemos ter em mente que os resultados dependem de muitas variáveis, nenhuma delas sob nosso controle. Somente a semeadura está sob um controle relativo nosso. Todo o restante dependerá de muitas coisas. É disso que a parábola fala, também. Nada de exigirmos que o solo esteja pronto! Cada qual tem seu tempo. Confiemos na Vida, em Deus. O tempo e as experiências farão o trabalho de preparo deste solo.
3. O ato de semear se dá através de pensamentos, palavras e ações. Quando oramos estamos semeando o bem. Quando aceitamos o que a vida nos propõe estamos semeando a paz. Quando mantemos a alegria no nosso dia-a-dia semeamos o bem viver. E assim por diante. Não se trata apenas de fazermos palestras ou batermos longos papos filosóficos, mas muito mais uma postura constante de vida para o bem.

Quanto aos quatro solos propostos na parábola, podemos destacar:

1. Á beira do caminho: São aquelas pessoas que estão totalmente desconectadas do sentido da vida. Pensam que a vida é apenas material, sem nada mais. e que viver pode ser um fardo ou uma busca incessante de diversões. Informações divinas não reverberam, no momento. Ainda sim devemos semear? Claro! Quando a vida trouxer experiências difíceis, a pessoa vai revirar os cofres da memória em busca de sementes que possam aliviar o sofrimento. Confiemos e continuemos a semeadura, certos de que ninguém fica a margem do processo evolutivo.
2. No solo pedregoso: Neste caso a raiz é fraca e o sol forte queimou o broto. São os que se alegram diante da proposta da semente, mas basta um contratempo, uma outra proposta para logo desistirem do caminho. São os que trocam facilmente uma palestra por um capítulo da novela ou um papo com amigos. Trocam um livro de teor mais elevado por um romance água com açúcar ou uma ficção passa-tempo. Como se o tempo não fosse algo sagrado….
3. Por entre os espinheiros: Aqui existe raiz, mas o broto é sufocado antes que possa gerar frutos. A vida na Terra não é mesmo fácil. São muitas demandas, muitos apelos e distrações. Quando o medo de perdermos as coisas materiais se torna constante, ou o receio de dizermos não a um parente que nos julga por sermos mais religiosos, ou porque existe o apelo pelo poder, etc., eis que a semente até gera uma planta, mas ela perece antes dos primeiros frutos. São aqueles que até estudam, mas quando a vida cobra, afastam-se de uma vivência mais espiritual. Destaco que não se trata de estarmos toda semana numa Casa Espírita, ou em uma igreja ou templo, mas de mantermos nosso contato com a própria prática espiritual, através da prece, do abastecimento emocional positivo, etc.
4. Em solo bom: São aqueles que tiveram algum progresso nas questões da Lei. Seus coração aceitam as verdades eternas com alegria e boa disposição. Conseguem compreender o papel da vida, das experiências e a missão que devem realizar neste contexto. Reconhecem seus talentos, utilizando-os pelo bem maior. Aceitam e trabalham. São gratos e confiam. Tratam suas feridas e seguem. Por fim, não são santos, como escrito acima, mas não descansam em berço esplêndido, cientes que são seres imperfeitos,  e ainda assim amando a si mesmos, alterando aquilo que precisa ser mudado, com carinho e atenção.

Finalizando o texto, deixo aos amigos duas perguntas fundamentais, para que  reflitam (quem sabe?), com atenção e sinceridade:

- Que tipo de semeador tenho sido? 

- Que tipo de solo apresenta meu coração?

Abraços e boa reflexão!

Claudia Gelernter

domingo, 23 de outubro de 2016

A Ansiedade e a Vida Que Passa: Discutindo a Ansiedade Normal e a Ansiedade Patológica

Você já se deu conta de que muitas vezes chega ao seu destino, guiando seu carro, sem saber explicar direito como fez isso, por onde passou, o que viu pelo caminho? Ou ainda já passou pela situação de ligar o computador para responder a determinado e mail, perdendo-se em outros atalhos, como por exemplo uma postagem na rede social ou a leitura de um texto, desligando o computador, tempos depois, sem se lembrar do que pretendia fazer, a princípio?

Isso infelizmente é bastante comum e denota falta de foco graças a ansiedade com inúmeros assuntos mantidos “em aberto” na rede mental, muitos deles levando o status de urgência, quando na verdade poderiam ser pensados e resolvidos em momento mais apropriado.

Parece que nos dias atuais estamos todos ligados em alta voltagem, girando em rotação 78, torcendo sempre por um milagre de multiplicação das horas. Como se a programação natural da vida não nos fosse mais o suficiente. Precisamos sempre de mais: mais tempo para conseguimos realizar mais atividades, para conseguirmos mais dinheiro, para podermos comprar mais e, no fim, gastarmos mais, inclusive com a saúde física e mental. Faz lembrar o paradoxo proposto pelo Dalai Lama, que disse que “Os homens perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem dinheiro para recuperar a saúde. E por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem do presente de tal forma que acabam por não viver nem o presente nem o futuro. E vivem como se nunca fossem morrer - e morrem como se nunca tivessem vivido.” 

E os minutos e dias passam, sem que o momento presente receba a devida atenção - único instante em que realmente temos a condição de realizarmos alguma coisa melhor para o amanhã.  

Sendo assim, a ansiedade tornou-se um mal que paralisa um número enorme de pessoas, pelo mundo afora. Alguns estudiosos comentam que se trata de um problema da era moderna e que a ocorrência deste mal se dá por conta da agitada dinâmica  de nossas vidas, na modernidade, com uma sociedade fundamentada em um eixo industrial, competitivo, de consumismo, repleto de expectativas de desempenho, etc. Bastaria participar nesta sociedade para sermos ansiosos. Seria, portanto, uma condição do homem moderno, uma determinação comum a todos nós.

O que acontece é que carregamos a possibilidade de estarmos ansiosos desde sempre, uma vez que potencialmente esta condição sempre esteve fisiologicamente presente no mundo animal, a partir dos répteis. Como humanos, na época em que morávamos nas cavernas, convivíamos com o medo de sermos aniquilados por algum predador faminto, ou nos acidentarmos, por exemplo. E este dispositivo de proteção nos serviu até aqui,  na pós modernidade,  mantendo-nos enquanto espécie, porém em um mundo radicalmente diferente. Nossos medos não estão mais circunscritos a um evento no aqui-e-agora, uma necessidade de fuga-ou-luta, dependendo do evento, mas a um sem número de receios abstratos, futuros, de acordo com as expectativas sociais e pessoais. Só que o nosso corpo não está devidamente adaptado a esta mudança brusca dos últimos séculos. 

Aquela ansiedade, que originalmente era desencadeada pela ameaça de sobrevivência, pelo medo,
passou a fazer parte do cotidiano, só que a serviço de uma existência cheia de exigências, não dependendo apenas da natureza dos eventos, como ocorre com os animais, mas de acordo com o significado que atribuímos a eles, de acordo com nossos recursos emocionais, da forma como percebemos fatos e pessoas e de como usamos nossos mecanismos de enfrentamento.

Ou seja, estarmos ou não ansiosos, depende fundamentalmente de como lidamos com os eventos, da nossa personalidade, e não tanto dos eventos em si. Por exemplo, para muitos, o anoitecer pode ser um evento natural, momento de relaxamento e de curtir a família, mas para os nictofóbicos (pessoas com fobia da noite ou escuro)  pode ser motivo de terror e desespero.

Carregamos até hoje o mesmo mecanismo de luta-e-fuga, que antes era destinado tão somente à sobrevivência, por conta dos perigos da vida. Porém, no homem moderno, estas ameaças primitivas, reais, com um objeto concreto a ser combatido, no tempo e no espaço, deram lugar a ameaças abstratas, constantes, internalizadas. O perigo deixou de ter um lugar fora e passou a morar dentro de nós. Vamos dormir e acordamos com ele. Já não nos detemos nas lutas tribais, já não precisamos fugir de animais ferozes. Na atualidade tememos a competitividade, a segurança nas ruas e nas casas, a queda na economia, as conquistas futuras, as prestações em atraso, o vestibular… Todas estas condições passaram a ter o mesmo significado de ameaça e de perigo que tinham os eventos que ameaçavam nossos ancestrais.

E já que carregamos este elemento biológico, capaz de reagir sempre que sob algum tipo de ameaça (seja ela real ou imaginária), hoje realmente convivemos com uma ansiedade crônica, contínua, altamente prejudicial à saúde física e psíquica. 

Ela - a ansiedade - surge em nossas vidas como uma sensação de temor, de algo está para acontecer, representando um estado de alerta e uma constante pressa em terminar o que começamos. Se antes a adrenalina subia de quando em vez, hoje ela é aumentada quase que diariamente. 

Importante lembrar que a ansiedade pode até nos ajudar, quando surge para nos favorecer no desempenho e adaptação. Porém, o faz somente até certo ponto, até que nosso organismo atinja seu máximo de eficiência. A partir daí, quando atinge um ponto a mais, a ansiedade poderá causar o fim da capacidade adaptativa. (imagem abaixo)




Excesso de Ansiedade e as síndromes ansiosas:

Imagine que está dirigindo seu carro a caminho do trabalho e então um caminhão corta sua frente, exigindo que seus reflexos atuem, instantaneamente. Suas mãos levam a direção para o lado direito, buscando o acostamento, enquanto o pé direito sai do pedal do acelerador, afundando com força no freio.Você sente seu coração acelerado, a respiração idem. Um batia susto! Todo o corpo se altera, com sensações que vão desde a cabeça até os pés. 
Para que estas reações mecânicas aconteçam, com a intenção inequívoca de manter sua vida, é preciso haja uma verdadeira revolução interna, a partir da percepção sobre a investida do caminhão e da interpretação do seu hipotálamo sobre o que viu. Se a interpretação é de perigo, imediatamente seu dispositivo interno de luta-ou-fuga será acionado, alterando muitas substâncias, para que todos os seus órgãos atuem de forma eficiente e imediata, para resguardar sua vida. 

O que acontece é que processo, quando experimentado vez ou outra, não acarreta grandes prejuízos em nossa saúde física e mental. Entretanto, como explicado acima, quando passamos a ter reações de estresse em variados momentos, a questão muda, podendo gerar diferentes problemas, podendo chegar ao ponto de desenvolvermos síndromes ansiosas.

Dr. Paulo Dalgalarrondo, em seu livro Psicopatologia e Semiologia dos Transtornos Mentais, explica que existem dois grandes grupos de síndromes ansiosas: Um grupo que consiste em quadros nos quais a ansiedade é constante e permanente (ansiedade generalizada, livre e flutuante) e quadros em que existem crises de ansiedade abruptas e mais ou menos intensas (são as chamadas crises de pânico, que podem configurar, se ocorrerem de modo repetitivo, o transtorno de pânico).  “O quadro de ansiedade generalizada caracteriza-se pela presença de sintomas ansiosos excessivos, na maior parte dos dias, por pelo menos seis meses. A pessoa vive angustiada, tensa, preocupada, nervosa ou irritada. Nesses quadros, são freqüentes sintomas como insônia, dificuldade em relaxar, angústia constante, irritabilidade aumentada e dificuldade em concentrar-se. São também comuns sintomas físicos como cefaléia, dores musculares, dores ou queimação no estômago, taquicardia, tontura, formigamento e sudorese fria. Alguns termos populares para esses estados são: “gastura”, “repuxamento dos nervos” e “cabeça ruim”. (Dalgalarrondo, p. 305)
Já as crises de pânico são momentos de intensa ansiedade, nas quais ocorre importante descarga do sistema nervoso autônomo. Assim, ocorrem sintomas como: batedeira ou taquicardia, suor frio, tremores, desconforto respiratório ou sensação de asfixia, náuseas, formigamentos em membros e/ou lábios. Além disso, ocorre com freqüência nas crises de pânico um considerável medo de ter um ataque do coração, um infarto, de morrer e/ou enlouquecer. As crises são de início abrupto (chegam ao pico em 5 a 10 minutos) e de curta duração (duram geralmente não mais que uma hora). São muitas vezes desencadeadas por determinadas condições, como: aglomerados humanos, ficar “preso” (ou com dificuldade para sair) em congestionamentos no trânsito, supermercados com muita gente, shopping centers , situações de ameaça, etc. Denomina-se o quadro de transtorno de pânico  caso as crises sejam recorrentes, com desenvolvimento de medo de ter novas crises, preocupações sobre possíveis implicações da crise (perder o controle, ter um ataque cardíaco ou enlouquecer) e sofrimento subjetivo significativo. A síndrome do pânico pode ou não ser acompanhada de agorafobia, ou seja, fobia de lugares amplos e aglomerações. 
Os tratamentos indicados para as pessoas que desenvolveram estas síndromes comportam visitas ao psiquiatra, com possível uso de medicamentos, além de psicoterapia e outras terapias e práticas alternativas, tais como a yoga e a meditação. Vale dizer que o mindfulness - técnica largamente utilizada pela Psicologia atual como ferramenta de controle da ansiedade e depressão, nada mais é que uma nova visita aos antigos ensinamentos védicos (2400aC) e budistas (600aC), no qual a pessoa foca a mente do aqui-e-agora, utilizando-se para isso de técnicas respiratórias e de manejo mental. 

Mesmo sem desenvolvermos transtornos psiquiátricos, estamos com problemas? 

Sem dúvida podemos afirmar que não precisamos apresentar sintomas físicos para nos darmos conta de que uma mente constantemente ansiosa pode causar perda de foco, problemas nos relacionamentos e mesmo dificuldades para a conclusão de tarefas. Pequenas decisões de cotidiano podem se tornar um tormento, já que um ansioso tende a querer ter controle total das circunstâncias, como se isso fosse possível. Aliás, já dizia o psicólogo espanhol Joan Garriga Bacardi que “quando queremos freneticamente controlar algo ou alguém, a única coisa que conseguimos é descontrole.”  
Nesta mesma linha, budistas, com bom humor, costumam utilizar o seguinte lema: “Relaxe! Nada está sob controle!”. 
A impermanência é uma marca da vida, que altera tudo e todos, o tempo todo. Nada é extático. E na contramão desta verdade, ansiosos tendem a crer que existe um controle, baseando suas análises em planilhas falsas, construídas em uma mente filogeneticamente programada para dar muito mais ênfase aos aspectos negativos da experiência que os positivos. 
Sempre comento com meus pacientes que se eles colocassem a verdade de suas experiências em planilhas reais, pautadas no que realmente aconteceu, teriam muito mais o que comemorar que temer. 
Entretanto é verdade o que neurocientistas comentam: que somos programados para destacar aquilo que de difícil nos aconteceu ou pode vir a acontecer. Somos “naturalmente" pessimistas, portanto. Sendo assim, o trabalho de alterar nossos padrões mentais torna-se urgente, porque importante e necessário. Sabemos que não se trata de tarefa fácil, porém inadiável.


Como diminuir nosso padrão de ansiedade?

Seria impossível explicar aqui, em algumas frases, tudo o que devemos alterar em nossas vidas para conseguirmos uma mente mais calma, harmoniosa, equânime. Entretanto, um resumo essencial sempre é possível, cabendo aos leitores a pesquisa mais aprofundada, ou mesmo a busca de ajuda psicoterápica, caso seja possível. 

* Primeiramente destaco a importância de atividades junto a natureza, como caminhadas meditativas, contemplativas, nas quais o silencio das palavras pode dar lugar a olhos e ouvidos abertos e atentos ao que acontece no instante imediato. Esta atividade pode ser muito prazerosa e, quem sabe, uma possibilidade de grandes descobertas, internas e externas. Recordemos que somos seres naturais e que, portanto, o contato com a natureza pode nos proporcionar enormes benefícios, quando estamos realmente presentes na experiência.
* Busque dar mais atenção à sua respiração. Observe como respira, neste instante. Tente fazer isso, caso seja possível, utilizando-se apenas das narinas, inspirando conscientemente e expirando longamente, observando o subir e o descer do abdome e dos pulmões. Faça isso por alguns minutos. Sempre que pensamentos cruzarem sua mente, buscando roubar a sua atenção, desapegue. Tome consciência sobre a natureza do pensamento e em seguida, libere-o, voltando a focar, gentilmente, no simples ato de respirar. Esta prática, quando se torna hábito, ajuda sobremaneira no controle da ansiedade.
* Tente desenvolver o hábito da meditação diária. Vários cientistas estão dizendo, através de estudos e pesquisas que sim, esta prática traz muitos benefícios para o corpo e para a mente.
* Mentes ansiosas amam trabalhar com metas. Então use esta tendência para o seu bem - crie metas, sem datas específicas, para conquistar seu bem estar mental e físico. Faça uma lista e vá trabalhando, aos poucos, para o seu bem geral. Depois de pouco tempo já perceberá os benefícios.
* Analise e perceba, informalmente, como somos todos imperfeitos e que isso é um estado natural do ser humano. Sendo assim, busque integrar em você os aspectos que considera negativos em sua personalidade. Não se trata de algo passivo, claro, mas de aceitar-se como é, para só depois ir trabalhando com o que se deseja mudar. Só assim, quando nos aceitamos, podemos acalmar nossas mentes, pois também temos mais chances de aceitarmos as outras pessoas como elas são.
* Trabalhe a aceitação incondicional da vida. Entenda que não se trata de concordar com tudo, nem ficar extático diante da realidade, mas não resistir ao inevitável. Lamentos e revoltas só nos desgastam, tornado a mente ansiosa, cheia de tormentos voluntários.
* Seja grato (a). Todos os dias, no final de sua jornada, antes do momento do sono, pense em tudo o que de bom te aconteceu. Faça uma lista, refletindo sobre estes eventos, tentando perceber como seria se eles não acontecessem, ou pior, se ocorresse o contrário. Este exercício, além de promover enorme bem estar, através da liberação de substâncias específicas, nos ajuda nesta reprogramação mental, com ênfase nos aspectos positivos da experiência. 
* Não lute contra o relógio. Se comprometa com menos coisas. Repense a possibilidade de uma vida mais simples, sem tantas exigências materiais.
* Não dê tanto destaque ao que as pessoas falam e pensam sobre você. Pense no quanto tem conseguido superar a você mesmo e comemore este caminhar. Impossível não frustrarmos os outros, vez ou outra.
* Viaje sempre que puder, mas sem estar preocupado em registrar imagens, mas apenas em absorver com a mente aqueles instantes de descoberta e encantamento. Tenha a atitude do peregrino e não do turista…
* Ajude mais pessoas. Escute o que elas tem a dizer. Esteja mais atento às necessidades dos outros. Este exercício nos coloca em contato com diversas experiências interessantes, por vezes sofridas, mas que nos mostram a capacidade de superação e força que nós humanos carregamos em nossas almas. 
* Sorria mais. Não faz muito tempo cientistas da mente descobriram que aqueles que sorriem, mesmo sem nenhum motivo, ou até mesmo indo contra aos sentimentos do momento, acabam por seduzir a mente, causando impactos positivos no emocional. 

Receitas no cristianismo, no hinduísmo e no budismo apontam nesta mesma direção?


Lendo este artigo alguns podem pensar que só na atualidade é que estamos tendo contato com estas importantes receitas de saúde mental. Ledo engano!
Antes mesmo de Jesus, no livro dos Vedas já encontramos trechos que nos ensinam como apaziguar nossas mentes, através de práticas yóguicas, meditações e postura ética diante do mundo e conosco mesmos. O Evangelho de Jesus, costumo dizer, é um verdadeiro manual de profilaxia mental, prevenção contra males diversos, sejam físicos ou mentais. Buda também seguiu esta linha e dedicou sua vida a encontrar respostas sobre as causas do sofrimento humano e as possíveis medidas de prevenção e cura para estes sofrimentos. 
A verdade é que a fala de todos os sábios (Lao-Tsé, Buda, Confúcio, Jesus, etc.) trazem uma mesma verdade essencial e universal: que devemos focar no momento presente, confiar na dinâmica da vida, dar menos importância aos aspectos materiais, fazer o nosso melhor por tudo e todos e sermos gratos ao universo por aquilo que nos acontece, de “bom"e de “ruim" (entre aspas porque nem sempre aquilo que consideramos bom é realmente bom e vice-versa). Aliás, diz um interessante ditado catalão que “Não há mal que por bem não venha”. No fim, é isso. Inteligentes são os que buscam identificar este aspecto positivo no meio da experiência difícil.

Como sermos os guardiões de nossa saúde mental?

Desde a mais tenra idade somos treinados a focar fora de nós. Pequenos móbiles, chamados, falas, histórias, estímulos outros sempre nos conduziram ao mundo exterior. Raros são aqueles que desenvolveram a autopercepção. Analisar como sentimos as coisas, de que maneira reagimos aos eventos, de que forma conduzimos as coisas é uma atitude necessária para os que desejam alterar os padrões da mente, construindo uma personalidade mais tranquila, menos reativa.
Sempre que sentir alguma emoção, pare e questione: O que estou sentindo? Tente nomear este sentimento, seja ele de raiva, ciúmes, inveja, tristeza, alegria… Coloque um rótulo e reflita do porquê ele surgir em seu coração. Perceba que em muitas circunstâncias damos mais valor àquilo que nem era tão importante… com o tempo percebemos que não seria preciso perder tanta energia emocional com determinadas situações….
Escolha estar bem. Escolha encontrar soluções e não culpados. Preserve-se, observando os itens que destaquei acima, estudando mais sobre o psiquismo humano, buscando praticar as lições passadas pelos grandes Mestres.
Perceba que a vida é breve e, assim como já dizia Rinpoche, com sua fantástica analogia sobre o piquenique e a vida (ler texto dele, abaixo), não devemos perder tanto tempo em discussões infrutíferas, mas sim focar no essencial, que é a a rica oportunidade de estarmos neste planeta, juntos, com renovadas situações de aprendizagem e sagradas condições de crescimento.
Isso é o que verdadeiramente importa. 
E, sendo assim, para que as ansiedades desnecessárias?

Claudia Gelernter

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APROVEITE O PIQUENIQUE

A vida é como um piquenique em uma tarde de domingo — ela não dura muito tempo. Só olhar o sol, sentir o perfume das flores ou respirar o ar puro já é uma alegria. Mas se tudo o que fazemos é ficar discutindo onde pôr a toalha, quem vai sentar em que canto, quem vai ficar com o peito ou a coxa do frango…, que desperdício! Mais cedo ou mais tarde o tempo fecha, a tarde cai e o piquenique acaba. E tudo o que fizemos foi ficar discutindo e implicando uns com os outros. Pense em tudo que se perdeu.

Você pode estar se perguntando: se tudo é impermanente, se nada dura, como pode alguém viver feliz? É verdade que não podemos, de fato, agarrar ou nos segurar às coisas, mas podemos usar esse conhecimento para olhar a vida de modo diferente, como uma oportunidade muito breve e rara. Se trouxermos à nossa vida a maturidade de saber que tudo é impermanente, vamos ver que nossas experiências serão mais ricas, nossos relacionamentos mais sinceros, e teremos maior apreciação por tudo aquilo que já desfrutamos.

Também seremos mais pacientes. Vamos compreender que, por pior que as coisas possam parecer no momento, as circunstâncias infelizes não podem durar. Teremos a sensação de que seremos capazes de suportá-las até que passem. E com maior paciência seremos mais delicados com as pessoas a nossa volta. Não é tão difícil manifestar um gesto amoroso quando nos damos conta de que talvez nunca mais estaremos com a nossa tia-avó. Por que não deixá-la feliz? Por que não dispor de tempo para ouvir todas aquelas histórias antigas?

Chegar à compreensão da impermanência e ao desejo autêntico de fazer os outros felizes nesta breve oportunidade que temos juntos, constitui o começo da verdadeira prática espiritual. É esse tipo de sinceridade que efetivamente catalisa a transformação em nossa mente e em nosso ser.

Não precisamos raspar a cabeça nem usar vestes especiais. Não precisamos sair de casa nem dormir em uma cama de pedras. A prática espiritual não requer condições austeras — apenas um bom coração e a maturidade de compreender a impermanência. Isso nos fará progredir.

Chagdud Tulku Rinpoche.

Referências:

Bacardi, J.G.; Viver na Alma; editora Saberes, Campinas, 2015.

Dalgalarrondo, P.; Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. Editora Artes Médicas do Sul; Porto Alegre,2000. 

Rinpoche, C.T.; Os portões da prática budista. Porto Alegre: Rigdzin, 2000.