sábado, 26 de agosto de 2017

Colo de Mãe

Colo de mãe é aconchego. É pitada de dengo doce com maçã ralada e pó de canela. É lugar sagrado, onde a mente descansa depois da brincadeira, da escola ou de algumas lágrimas salgadas.

Colo de mãe é acolhimento. É espaço de não-julgamento, onde a dor de uma culpa gigante vai diminuindo, embalada, até ficar do tamanho de uma sementinha de flor.

Colo de mãe é força. É cama macia entre dois braços firmes, contando pra gente que estamos seguros, mesmo depois do mundo acabar.

Colo de mãe é carinho. É afago delicado, na medida certa.  É potência divina em ação, ensinando que o amor deve ser partilhado, sempre que necessário, com qualidade e devoção.

Colo de mãe traz um céu para a Terra com o cantar do coração. Coração que bate calmo, e que mostra ao filho que tudo está bem, apesar das bombas no mundo.

Colo de mãe é pilar que sustenta o ego do filho. Alicerce que permite à criança desenvolver a confiança em si mesma, ficando firme lá fora, mesmo quando alguns desavisados dizem o contrário.

Colo de mãe é oxigênio. É o respirar que movimenta a cabeça do filho de lá para cá, de cá para lá, delicadamente, convidando a alma ao descanso necessário.

Colo de mãe é impermanência. Ora está, ora se foi. Mas quando acontece, ensina que é preciso paciência, até que possa voltar, com um novo sorriso.

Colo de mãe é prece. É o retrato de Mãe Maria, a embalar seu filho querido, num momento de conexão sagrada, tendo um estábulo como paisagem.


Colo de mãe é Deus. É sustento absoluto enquanto crescemos, distraídos, nesta vida, com seu mar de experiências. Vida intensa e exigente mas que, por amor a todos nós, logo ao nascermos para o mundo, nos presenteia com um essencial e maravilhoso COLO DE MÃE.

domingo, 20 de agosto de 2017

Oração de Uma Mulher


Que eu possa ser como Maria, Senhor!
Não a que padecia, entregue aos equívocos do prazer efêmero,
Mas a outra, já desperta, que te acompanhou nas estradas do caminho,
E que, quando em frente ao sepulcro vazio,
Atônita e preocupada, pôde ver-te materializado, em plena luz do dia,
Conferindo a alegria da vida eterna!

Que eu possa ser como Maria, Senhor!
Não aquela que inda menina desconhecia o Amor Verdadeiro,
Mas a que decidiu ouvir-te, curvada, na soleira da própria casa,
Mesmo quando sua irmã Marta reclamava assistência imeditada...
E que, feliz, descobriu estar certa
Já que as primícias do Reino valem o tempo que for necessário...

Que eu possa ser como Maria, Senhor!
Não aquela que por vezes sentiu receio de tua missão sacrificial;
Mas a que confiou no anjo bom, com sua profecia divina,
E que após as dores do parto, abraçou-te amorosamente,
Num estábulo desconfortável,
E deu-te da própria vida para que a vida em ti florescesse.

Que eu possa ser como Maria, Senhor!
Sabendo amar para além de mim mesma,
Nesta Terra de tantos desencontros...
E depois de tudo, encontrar-me contigo
Num bonito entardecer
Às margens do grande lago
Para ouvir-te, uma vez mais
e contigo me fortalecer
Antes de um novo recomeçar...


Claudia Gelernter.

Mediunidade, Médiuns e a Conexão Mental Entre Todos os Seres

"Tudo é trabalho da mente no espaço e no tempo, a valer-se de milhares de formas, a fim de purificar-se e santificar-se para a Glória Divina". 
André Luiz (Entre a Terra e o Céu, Capítulo XX, p. 128).
  
O tema mediunidade é de grande importância, já que faz parte da grande Lei Divina ou Natural. Todos a possuem, mesmo que de forma rudimentar, e se trata da capacidade de percebermos, nos impressionarmos ou simplesmente sermos influenciados, tocados por outras mentes, quer estejam elas mergulhadas no campo físico ou não.


Explicou Kardec, em O Livro dos Médiuns, capítulo 14, item 159, que “toda pessoa que sente a influência dos Espíritos, em qualquer grau de intensidade é medium. Essa faculdade é inerente ao homem. Por isso mesmo, não constitui privilégio. (...) Pode-se dizer, pois, que todos são mais ou menos médiuns.” (2005)

Vale ampliarmos um pouco mais este conceito, a fim de podermos fazer algumas diferenciações importantes. A palavra médium faz referência, principalmente, à capacidade da pessoa ser intermediária entre dois planos da vida (o mundo corporal e o espiritual). Sendo assim, médium seria “aquele que está no meio”, o que faz conexão com mentes ou lugares em outra dimensão e exterioriza o que percebe. Seria aquele que traz aquilo que percebeu no outro plano da vida para a dimensão onde está inserido.

Sob este ponto de vista, podemos dizer, ainda, que todos possuem mediunidade, mas nem todos atuam como médiuns (falo aqui no sentido de atividade mediúnica). Isso porque aquele que é influenciado por outras mentes nem sempre servirá de “ponte” entre os dois planos, tampouco se utilizará de suas capacidades medianímicas para produzir determinados fenômenos (pintura mediúnica, psicografia, efeitos físicos, etc).  E mais ainda: a maior parte das pessoas sequer tem consciência de que sofrem algum tipo de influência de outras mentes.

Na verdade, muito se fala sobre os médiuns oestensivos, ou seja, aqueles que são mais influenciáveis, que percebem mais concretamente a ação e presença dos Espíritos (encarnados ou desencarnados), produzindo, por conta de sua predisposição perispiritual, fenômenos variados.

Ainda no mesmo capítulo acima citado, Kardec salienta que essa faculdade (mediunidade) não se revela em todos da mesma maneira. Os médiuns têm, geralmente, aptidão especial para esta ou aquela ordem de fenômenos, o que os divide em tantas variedades quantas são as espécies de manifestações. As principais são: médiuns de efeitos físicos, médiuns sensitivos ou impressionáveis, auditivos, falantes, videntes, sonâmbulos, curadores, peneumatágrafos, escreventes ou psicógrafos.” (cap. XIV)

O presente artigo não pretende esmiuiçar estes tipos de mediunidade, estudados com frequência nas Casas Espíritas, através das obras básicas e complementares. Aqueles que desejam aprender mais a respeito, devem buscar meios para isso, principalmente a leitura minuciosa de O Livro dos Médiuns, por ser ele o melhor roteiro para aqueles que se percebem mais sensíveis e que pretendem desenvolver melhor suas capacidades perceptivas.

O trabalho mediúnico é tarefa séria, que requer mais que amorosidade: exige também a prática de estudo constante, auto vigilância e dedicação rotineira, sob risco de erros e quedas graves.

Neste texto buscarei destacar a realidade da mediunidade no nosso cotidiano, a questão da natureza dos pensamentos e as possíveis sintonias e conexões firmadas entre nossa mente e a de outros seres.

Isso porque muito do que sentimos, fazemos, pensamos, além de alguns  sintomas físicos, podem ter em sua gênese algo mais que somente a ação ou sentimentos do próprio Espírito reencarnado.

A Natureza dos Pensamentos

Mas, afinal, o que são pensamentos? De onde vem e o que ocasionam?
A respeito deste tema existem variadas teorias. Não me deterei demasiado tempo nas explicações sobre elas (que são muitas), já que a discussão sobre a relação mente-cérebro ainda está na pauta da ciência, em muitas das universidades, do mundo todo. O meio acadêmico ainda não chegou a um consenso a respeito.  Resumidamente, e dividindo estas teorias em dois grandes grupos, podemos dizer que parte dos neurocientistas – aqueles que se apoiam em uma base teórica (filosófica) materialista/reducionista – afirmam que a mente é um produto cortical, que os pensamentos são parte desta mente que nada mais é que uma excreção, um subproduto de ligações complexas cerebrais. “Frequentemente acreditam que o cérebro humano é a resposta, que a mente não existe, ou que é apenas um produto (para alguns, um epifenômeno, um subproduto ineficiente) da química e da atividade elétrica cerebral.” – explica o Prof. Dr Alexander Moreira-Almeida, da UFJF, no inicio de um de seus artigos sobre esta tal discussão. Para estes, tudo é matéria e nada existe ou sobrevive ao corpo e seus processos.
Entretanto, um crescente número de estudiosos vem afirmando que existem evidências robustas de que a mente é externa ao corpo e que ela é quem dá o tom aos processos cerebrais e físicos. Dentre outras frentes de pesquisas, estes cientistas (grupo do qual faz parte o próprio Dr. Alexander Moreira-Almeida) seguem realizando estudos sérios a respeito das EQMs (Experiências de Quase Morte). Teorias unicamente materialistas não conseguem explicar como as pessoas experienciam pensamentos complexos e vívidos que são validados como verídicos posteriormente, em momentos nos quais a atividade cerebral está aparentemente ausente.

Para nós, que aqui discutimos a questão da mediunidade e as influências espirituais, obviamente a mente é externa ao corpo, preexistente e sobrevivente a ele e os pensamentos são resultado de sua atividade e não do cérebro. O que ocorre é que o cérebro – uma máquina extremamente influenciável, com sua plasticidade e capacidades próprias, pode criar caminhos sinápticos de repetição, promovendo a continuidade de mesmos pensamentos, até quando a mente (alma) já não mais deseja repeti-los. Vale dizer que tal “viciação” só ocorre após muitos estímulos repetidos da mente.

Por exemplo, a pessoa, por conta de uma experiência marcante negativa com alguém, registra no campo emocional o evento como aversivo e repete pensamentos de raiva contra aquele que cometeu o suposto mal contra ele. Depois de algum tempo todo o sistema cerebral estará encharcado com esta natureza de pensamentos, fazendo-os repetir, mesmo quando estes se tornam prejudiciais ao ser pensante.

E mais: tais pensamentos repetidos acabam por formar, em torno da pessoa, uma aura específica. Os fluidos se transformam, absorvendo o tom dado pela mente autora, exteriorizando-se, modificados. Disse Kardec que “os maus pensamentos corrompem os fluidos espirituais, como os miasmas deletérios corrompem o ar respirável” (LM. cap. 14 item 16).

Pode-se concluir assim, que em torno de uma pessoa, de uma família, de uma cidade, de uma nação ou planeta, existe uma atmosfera espiritual fluídica, que varia vibratoriamente, segundo a natureza moral dos Espíritos envolvidos.

Atmosfera Fluídica e Sintonia.

Emmanuel, na obra “Roteiro”, esclarece que: “Somos obsidiados por amigos desencarnados ou não e auxiliados por benfeitores, em qualquer plano da vida, de conformidade com a nossa condição mental. Daí, o imperativo de nossa constante renovação para o bem infinito.

A questão da natureza dos pensamentos é algo muito mais sério do que pensam alguns. Jesus já dizia que o adultério começa nos pensamentos e que já ali a questão é grave. No livro Nos Domínios da Mediunidade, ditado pelo Espírito André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier, o orientador Áulus comenta que “arrojamos em nós a energia atuante do próprio pensamento, estabelecendo, em torno de nossa individualidade, o ambiente psíquico que nos é particular.” (...)  e que “nossa mente é um núcleo de forças inteligentes, gerando plasma sutil que, a exteriorizar-se incessantemente de nós, oferece recursos de objetividade às figuras de nossa imaginação, sob o comando de nossos próprios desígnios.” Mas não paramos por aí. Além de exteriorizarmos formas-pensamento, acabamos por alterar fluidos e nos sintonizamos com outras mentes a partir da qualidade destes pensamentos. Diz ainda o orientador espiritual que “onde há pensamento, há correntes mentais e onde há correntes mentais existe associação. E toda associação é interdependência e influenciação recíproca.
Estamos aqui destacando a questão da sintonia mental, uma Lei natural, que nos faz viver em regime de interdependência psíquica, além da orgânica, como a natureza já nos demonstra, diuturnamente.

Portanto, a ideia de individualidade total e de sigilo absoluto dos pensamentos é equivocada. 


 À esta atmosfera fluídica que criamos, associam-se seres desencarnados com tendências morais e vibratórias semelhantes, através desta Lei.

Por esta razão, os Espíritos superiores recomendam que nossa conduta, nas relações com a vida, seja a mais elevada possível. Uma criatura que vive entregue ao pessimismo e aos maus pensamentos, tem em volta de si uma atmosfera espiritual escura, da qual aproximam-se Espíritos doentios. A angústia, a tristeza e a desesperança aparecem, formando um quadro físico-psíquico deprimente, que pode ser modificado sob a orientação dos ensinos morais de Jesus.

Perispírito, mediunidade e as várias dimensões em que a vida acontece.

Kardec toma alguns cuidados ao organizar a doutrina dos Espíritos.

Um deles foi o de criar palavras novas para conceitos novos, a fim de evitar confusões teóricas. Dentre elas, passa a chamar de períspirito o envoltório fluídico que dá forma ao Espírito, constituído de matéria sutil, não perceptível aos olhos físicos. Antes dele, diversas culturas já falavam a respeito deste corpo espiritual, usando outros nomes, mas destacando propriedades específicas, tais como a dos Centros de Força (Chakras, para os hindus), que foi tão bem explicado, posteriormente, pelo Espírito André Luiz.

Logo no início de sua mais famosa obra, Zimmermann, no livro “Perispírito”, explica que "Perispírito é o envoltório sutil e perene da alma, que possibilita sua interação com os meios espiritual e físico" (Cap. I, p.23).

Possui a propriedade de ponderabilidade (pode ser submetido a medida de peso) e luminosidade (pode ser mais ou menos luminoso, de acordo com as características evolutivas do Espírito).

Outra propriedade é a de penetrabilidade. Por conta dela, os espíritos podem atravessar paredes ou qualquer barreira física. Contudo, os desencarnados que ainda são muito ligados à matéria podem não conseguir atravessar obstáculos físicos em decorrência de seu estado mental de baixo potencial vibratório, o que condiciona suas possibilidades, visto que seu perispírito está revestido de matéria mais densa.

Outra característica é a de expansibilidade, que significa a ampliação do campo de sensibilidade do períspirito. E é por conta desta característica que acontecem diversos processos de percepção mediúnica.

O perispírito, quando materializado pode ser tocado, portanto é dotado de tangibilidade. Esta é uma das formas de manifestação dos Espíritos.

O perispírito é perene, está ligado à alma e como esta, não pode ser destruído. Possui, ainda, a característica de mutabilidade. Zimmermann afirma que:

"O perispírito, no decorrer do processo evolutivo, se não é suscetível de modificar-se no que se refere à sua substância, o é com relação à sua estrutura e forma". (Zimmermann, Perispírito, Cap II, p.55).

Graças às suas propriedades, também é reservatório de memórias do Espírito, possuindo plasticidade, podendo alterar sua forma, de acordo com as predisposições e vontades da mente.

O mais importante a se saber aqui, por conta do tema proposto, é que o períspirito apresenta densidade variável de acordo com a evolução do Espírito.

Por ser suscetível de transformar-se estruturalmente, o períspirito pode tornar-se mais ou menos denso, de acordo com nossos pensamentos/ sentimentos. Sendo assim, quando cultivamos ideias negativas, maldosas, de desistência, raiva, etc. automaticamente alteramos o “peso”e a densidade do períspirito, passando a vibrar em dimensões também mais pesadas, onde transitam almas no mesmo padrão. Basta alterarmos nossos sentimentos para sairmos de uma paisagem vibratória para outra, instantaneamente. O oposto é verdadeiro: quando vibramos amor, no mesmo instante saímos de uma dimensão mais densa para outra, mais elevada, pacificada, harmoniosa.


Oração, Desdobramento e Espíritos Orientadores

Dado o fato de que vivemos em um mundo de provas e expiações, por necessidade e merecimento, estamos sempre recebendo imputs de natureza inferior, assim como, por conta de nossa própria imaturidade psiquica/espiritual, continuamos lançando no mundo nossos próprios dardos mentais, alterando negativamente os fluidos que nos envolvem, influenciando também o meio no qual estamos inseridos.

A questão é que nossa essência real é divina, portanto, amor, paz. E sempre que nos desviamos do caminho amoroso, sofremos, porque nos afastamos do nosso eu real, divino, cósmico. A dor entra neste processo como instrumento pedagógico, capaz de nos fazer retomar ao bom caminho, reconhecendo a trilha do bem como sendo a melhor possível.

Sempre que pensamos e realizamos coisas boas, as sensações são as melhores possíveis, só sendo diferente nos casos de profunda viciação junto ao mal.

Na maior parte dos casos, quando acertamos o passo, logo sentimos melhora geral.

E, para conseguirmos melhorar neste caminho cheio de dificuldades, Jesus e outros sábios da antiguidade nos ensinaram o valor da prece.

Se nossos pensamentos modificam os fluídos, tanto positiva como negativamente, e se estes fluídos atraem outras mentes, entendemos que para atrairmos o concurso dos bons espiritos precisamos elevar o tom mental.

A oração traz em si um roteiro de pensamentos mais elevados, pois denota fé no apoio dos irmãos mais maduros que nós, de Deus, coloca a mente aberta para as boas sugestões, por conta da própria vontade direcionada.

Recordemos que André Luiz só recebeu o socorro de que tanto necessitava após utilizar-se do recurso da prece, oito anos após sua chegada a uma das regiões densas do mundo espiritual. Mesmo a intervenção constante de sua mãe - espírito de alta hierarquia moral - e de outros amigos dela, não foi suficiente para retirá-lo de sua situação miserável. Foi preciso um movimento dele, no sentido de dar algo de si, alterando a própria densidade perispiritual, a fim de poder abrir-se para a ajuda que ali estava, desde antes.

Faz recordar a passagem evangélica, narrada pelos quatro evangelistas, sobre quando Jesus teria alimentado uma multidão de pessoas, antes de ensiná-los sobre a Boa Nova, nos arredores de Betsaida. De acordo com os evangelhos, quando Jesus ouviu que João Batista havia sido morto, partiu solitariamente para a  pequena vila de Pescadores. Mas o povo o seguiu e, estando lá, Jesus se compadeceu deles, curando muitos doentes.

À noite, muitos estavam com fome e os discípulos procuraram o mestre, dizendo que as pessoas deveriam ir embora em busca de alimentos. Porém, Jesus pergunta aos amigos quais alimentos poderiam oferecer, ao que responderam: “apenas cinco  pães e dois peixes, senhor”.  Jesus os toma e multiplica-os, a ponto de conseguir alimentar 4000 pessoas, com sobras de dez cestos...

Assim também se dá nas questões da alma. Quando buscamos melhorar nosso padrão mental, conseguimos nos ligar aos bons amigos espirituais e eles então multiplicam nossas possibilidades existenciais, de maneira positiva, inspirando-nos no bom caminho, amparando-nos em nossas dores, aliviando nossos pesares. Não foi por outro motivo que Jesus também nos ensinou que “àquele que tiver, mais será dado...”

Na questão 495 de O Livro dos Espíritos, Santo Agostinho e São Luiz comentam sobre a ação destes Espíritos Protetores. Pedem que mantenhamos contato constante com eles, melhorando nossas condições mentais, psíquicas, emocionais. Vejamos a parte final de seus elevados comentários:

“Não temais fatigar-nos com as vossas perguntas; permanecei, pelo contrário, sempre em contato conosco: sereis então mais fortes e mais felizes. São essas comunicações de cada homem com seu Espírito familiar que fazem médiuns a todos os homens, médiuns hoje ignorados, mas que mais tarde se manifestarão, derramando-se como um oceano sem bordas para fazer refluir a incredulidade e a ignorância. Homens instruídos, instruí; homens de talento, educai vossos irmãos. Não sabeis que a obra assim realizais: é a do Cristo, a que Deus vos impõe. Por que Deus vos concedeu a inteligência e a ciência, senão para as repartirdes com vossos irmãos, para os adiantar na senda da ventura e da eterna bem aventurança?”  São Luis, Santo Agostinho


Temos aprendido, ainda na mesma obra, que o Espírito, no momento do sono físico, não fica enclausurado junto ao corpo, mas sai dele, num processo denominado desdobramento. Isso fica claro na questão 401, quando Kardec faz a seguinte pergunta: “Durante o sono, a alma repousa como o corpo?” E a resposta dos Espíritos é direta:
“—Não, o Espírito jamais fica inativo. Durante o sono, os liames que o unem ao corpo se afrouxam e o corpo não necessita do Espírito. Então, ele percorre o espaço e entra em relação mais direta com os outros Espíritos.”

Diante de todo o exposto até aqui, fica claro que, por questões de vontade, afinidade e sintonia, nos ligaremos aos espiritos que conjugam do mesmo padrão que o nosso. E, estando parcialmente libertos na média de 08 horas de sono do corpo, entendemos que podemos melhorar, manter ou piorar nossa existência, nossa posição no quadro evolutivo, de acordo com o que realizamos neste 1/3 de tempo que nos é concedido pela vida, com maior liberdade espiritual.

Daí a importância da prece antes do adormecimento físico. Não a prece decorada, seca, vazia, desprovida de sentimento nobre, mas aquela que nasce do ângulo mais sagrado do nosso coração, para que possamos alterar nossas condições internas e externas e, assim, conseguimos contatar os irmãos mais maduros e sábios que nós e, com eles, seguirmos em frente, trabalhando, estudando e nos instrumentalizando, para, enfim, construírmos em nós e fora de nós, o tão almejado Reino de Deus.



A Prática do Evangelho no Lar e a mediunidade com Jesus

Inegável que a energia, a atmosfera psíquica dos templos sagrados, onde se cultivam as preces feitas com uma fé robusta, é salutar. Lugares onde as pessoas buscam realizar aquilo que de melhor levam em seus corações.  A esta energia peculiar, agradável e curadora, também damos o nome de egrégora. Trata-se de uma força fluídica criada a partir da soma de energias coletivas (mentais, emocionais).

No lar não é diferente.

Ensinam-nos os Espíritos amigos que, quando nos reunimos em nome de Deus, independentemente da religião professada pelos familiares, tendo por objetivo principal a união das almas, em busca do sagrado, de inspirações salutares e proteção espiritual, os bons Espíritos assumem conosco este compromisso de contato e oração, fazendo formar uma sinergia especial, capaz de produzir uma blindagem energética, protetora. Tais Espíritos também retiram do ambiente doméstico as energias mais densas, acumuladas pelas vivências cotidianas. Além disto, no momento do sono, continuam conosco, a fim de nos orientarem nas atividades da noite.

Ou seja, quando evocamos estes benfeitores, para com eles unirmos forças emocionais, através da prece ao Criador, à Jesus, podemos promover mais facilmente, em nós e no grupo familiar, uma sensível alteração nos padrões psíquicos.

Podemos sentir maior alívio em nossas preocupações, coragem no enfrentamento de nossos desafios, paciência no contato com os outros, etc.

Por certo que esta prática só produz resultados quando a vontade for sincera e a dedicação à mudança íntima estiver sempre presente.

Cabe aos pais e responsáveis promoverem este encontro com as esferas mais elevadas da vida, a fim de manter o grupo familiar em caminho mais seguro, rumo a vitórias coletivas.

Recordemos que, seja qual for nossa missão na Terra, ela sempre está atrelada à melhora do eu, desfazendo-nos da nossa pequenez egóica, aprofundando-nos na nossa porção mais sagrada, divina, concomitantemente auxiliando nossos irmãos do caminho neste processo.

E, neste caminhar, nada melhor que usarmos nossa mediunidade, ou seja, a nossa capacidade de conexão espiritual, para contatarmos as forças do Cristo.
Porque, assim como nosso querido mestre nos ensinou, sua energia, seus exemplos e palavras são, sem dúvida alguma, o caminho, a verdade e a vida.
E é através desta sintonia sagrada que poderemos aumentar nossas capacidades de mudança positiva, sejam elas de ordem íntima, familiar ou planetária.


Referências Bibliográficas:

KARDEC A. O Livro dos médiuns ou Guia dos médiuns e dos evocadores. Trad. de Guillon Ribeiro da 49. ed. francesa. 76. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.
___________. O Evangelho segundo o Espiritismo. Trad. de Guillon Ribeiro da 3. ed. francesa rev., corrig. e modif. pelo autor em 1866. 124. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2004.
__________. O Livro dos Espíritos: princípios da Doutrina Espírita. Trad. de Guillon Ribeiro. 86. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.
___________A Gênese: os milagres e as predições segundo o Espiritismo. Trad. de Guillon Ribeiro da 5. ed. francesa. 48. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.

MOREIRA-ALMEIDA, A. Explorando a relação mente-cérebro: reflexões e diretrizes- Exploring mind-brain relationship: reflections and guidelines, Rev. psiquiatr. clín. vol.40 no.3 São Paulo  2013.

XAVIER, F C. Roteiro. Pelo Espírito Emmanuel. 7.ed. Rio de Janeiro, RJ: FEB. 1986.
____________. Nos domínios da mediunidade. Pelo Espírito André Luiz. 32. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.
____________. Entre a Terra e o Céu. Pelo Espírito André Luiz. 23. ed. Rio de Janeiro: FEB, 2005.

ZIMMERMANN, Z. Perispírito. 1ª ed. Campinas, SP: CEAK, 2000.


segunda-feira, 1 de maio de 2017

A Ignorância Sobre Nossa Natureza Divina e as Pedras que Atiramos

Advirto-te, quem quer que sejas, 
Oh! Tu que desejas sondar os Arcanos da Natureza,
se não encontras dentro de ti aquilo que procuras,
tampouco o poderás encontrar fora.
Se ignoras as excelências da tua própria casa,
como poderás encontrar outras excelências?
Em ti se encontra oculto o Tesouro dos Tesouros.
Oh! Homem, conhece-te a ti mesmo
e conhecerás o Universo e os Deuses”
Texto inscrito no patio do Templo de Apolo, Delfos (Grécia)
A frase acima, embora muitas vezes tenha sido atribuída ao filósofo Sócrates, na verdade está inscrita na entrada do Templo de Apolo, local mundialmente famoso, na cidade de Delfos, na Grécia. 
Nesta cidade foi construído um Oráculo bastante conhecido, que ao longo dos séculos foi consultado por muitos personagens importantes da história, incluindo Alexandre, o Grande.
Lá, as famosas sacerdotisas, chamadas de Pítias (ou pitonisas), respondiam as perguntas de forma enigmática, em versos, como os que lemos nos livros Ilíada e Odisséia, de Homero. Segundo pesquisadores elas o faziam sob o efeito de um gás específico que fluía através das rachaduras no solo. Seja lá como for, o que se sabe é que muitas guerras começaram e também foram evitadas por conta das profecias.

Mas não é apenas na Grécia que encontramos o importante aforismo “Conhece-te a ti mesmo”. Também no antigo templo de Luxor, no Egito, estava escrito “O Corpo é a Casa de Deus: Homem, conhece-te a ti mesmo!”

Cabe dizer  que este aforismo tão citado, não vem sozinho, mas antes está cravado no meio de outras frases também importantes, que lhe emprestam um sentido mais positivo, sagrado e profundo.

Fala sobre desvelarmos o divino que habita em nós, fala sobre a excelência da nossa casa espiritual, do tesouro maior que carregamos em nós, pois estamos totalmente fundidos e repletos do divino.

Este é, portanto, o ponto principal a ser destacado no texto: já somos amor, paz e felicidade, sob o ponto de vista dos gregos e egípcios antigos. Também para a cultura védica (nascida no Vale do Indo, cerca de 4500 anos atras, através dos livros chamados de Vedas) nós só sofremos porque não sabemos quem somos, realmente. Não nos damos conta de nossa essência espiritual Quando nos identificamos com o aspecto material da existência, dizem eles, sofremos, pois estamos transitando longe da nossa real natureza, que é o próprio Deus. Para os hindus o ego traz dor e desarmonia, pois se percebe destacado do Todo, independente, necessitado de coisas materiais, reconhecimentos e poder. 

Para os Cristãos que estudaram os Evangelhos do Cristo, não é diferente. Jesus afirmou: “Sois Deuses”. Disse, ainda, que se tivermos fé que poderíamos fazer o que ele fez e muito mais… e ainda arrematou a questão, comentando que o Reino está em nós…

Sidartha Gautama, o Buda, não transitava longe destes preceitos. Dizia que quando atingimos o estado de iluminação cessam todos os sofrimentos, sendo que este estado é o de completa consciência de pertencimento, de união e paz. Uma experiência intensa,  difícil de se expressar através das palavras.

Mas, se na essência mais profunda somos o divino, por que ainda agimos dentro de um padrão profano?

Por que evitamos o sagrado e nos apegamos ao efêmero, ao orgulho, ao egoísmo?

Possivelmente por ignorarmos nossa real condição de filhos de Deus, e por acreditarmos erroneamente que a vida deve se sustentar em três falsos pilares: o materialismo, o individualismo e o consumismo. 

Ainda precisamos dos erros para chegarmos aos acertos. Estamos experimentando até compreendermos o melhor caminho. Sob este ponto de vista, está tudo certo, entretanto nos cabe este despertar, pois,  com baixa auto-estima seguimos pelo Planeta fazendo muitos estragos.

Aliás, há quem diga que baixa auto-estima seja o maior problema da humanidade, desde sempre. Isso faz sentido quando compreendemos que a falta de amor próprio nos leva a atitudes que desembocam em maiores problemas, tanto para nós como para outros, além do meio ambiente. Dentro dos variados processos de auto-sabotagem, vemos na base deles ora remorsos antigos, ora pensamentos/sentimentos orgulhosos e até mesmo egoístas. 

Vejamos alguns exemplos: 

A pessoa crê-se inferior por ter cometido erros no passado e então pauta sua vida na infelicidade (não se entende como merecedora de felicidade), fazendo escolhas equivocadas, relacionando-se com pessoas que não a valorizam ou deixando de abraçar atividades ou ações que façam bem a ela. São aquelas pequenas escolhas de cotidiano que vão nos falando sobre seu psiquismo: a qualidade e quantidade de alimentos no prato, o escasso ou excessivo tempo para o sono, o sedentarismo, o uso de entorpecentes, relacionamentos tóxicos, etc.

Outro exemplo comum: por falta de autoconhecimento, a pessoa com tendência ao orgulho, busca rebaixar outros, apontando falhas ou criando supostos problemas no caráter nas pessoas, para tentar dar conta de uma angustia muita vez inconsciente, nascida dos desejos obscuros que ela mesma possui. Por exemplo, pessoas que possuem o desejo de trair e deslocam para o(a) parceiro(a) o problema, com enormes crises de ciúmes, acreditando-se traídos. Ou ainda os que gostariam de abandonar a forma de viver atual, deixando de seguir determinados padrões, e então criticam acidamente as escolhas daqueles que caminham sem as amarras sociais. 

A questão aqui muita vez é inconsciente e a este processo Freud nomeou Projeção. Projetamos nos outros aquilo que não suportamos em nós mesmos. Vê-se, portanto, que na base existe uma questão capital: a baixa auto-estima. Não aprovamos nossos desejos, eles nos incomodam, então lançamos ao mundo o que há em nós.

Hoje cedo estava lendo uma postagem de um amigo que está em lua-de-mel na Índia. Como descrição nas lindas imagens, comentou: "Sim, Nova Délhi é mesmo uma cidade de trânsito caótico, profusão de cores e sagrado por todos os lados. Mas, também há muito verde, uma infinidade de árvores e pássaros, e pessoas sempre sorridentes." 
Percebe-se que costumamos destacar da realidade aquilo que melhor nos corresponde. Não foi a toa que o próprio Freud comentou que quando Pedro fala de Paulo, sabemos muito mais sobre Pedro que sobre Paulo...

Aliás, vale dizer que, historicamente, somos prodigiosos na arte de criarmos sofrimentos. Ainda dentro da questão da projeção, vemos um desfilar de ataques, que muitas vezes desembocaram em brigas, até mesmo em morte ao longo dos milênios.

Só no antigo testamento elencamos 18 situações em que deveríamos matar pessoas por apedrejamento, caso trilhassem fora dos padrões estabelecidos pela religião, no caso, o judaísmo. Vejamos:

Bestialidade cometida por homem.
Bestialidade cometida por mulher.
Blasfêmia
Relações sexuais com uma virgem comprometida.
Relações sexuais com enteada.
Relações sexuais com mãe.
Relações sexuais com madrasta.
Amaldiçoar os pais.
Instigar indivíduos à idolatria.
Idolatria.
Instigar comunidades à idolatria.
Necromancia.
Sacrificar o próprio filho ao deus Moloch.
Homossexualidade.
Pitonismo.
Rebeldia dos filhos contra os pais.
Desrespeitar o shabat (descanso no sábado).
Bruxaria.

 Vamos direto às fontes:

Sobre adorar outros deuses que não o judaico, em Deteuronômio Dt 13:7-11, lemos: “Se seu irmão, filho de seu pai ou de sua mãe, ou seu filho, sua filha, ou a esposa que repousa em seus braços, ou o amigo íntimo quiser seduzir você secretamente, convidando: ‘Vamos servir outros deuses’ (deuses que nem você nem seus antepassados conheceram, deuses de povos vizinhos, próximos ou distantes de você, de uma extremidade da terra à outra), não faça caso, nem dê ouvidos. Não tenha piedade dele, não use de compaixão, nem esconda o erro dele. Pelo contrário: você deverá matá-lo. E para matá-lo, sua mão será a primeira. Em seguida, a mão de todo o povo. Apedreje-o até que morra, pois tentou afastar você de Javé seu Deus, que o tirou do Egito, da casa da escravidão. E todo o Israel ouvirá, ficará com medo, e nunca mais se fará em seu meio uma ação má como essa." 
Em Levíticos,  Lv 20 - “Todo israelita ou estrangeiro que habita em Israel e que sacrificar um de seus filhos a Moloc, será punido de morte. O povo da terra o apedrejará." 

Sobre separações por perda de virgindade antes do casamento, lemos em Deteuronômio Dt 22:13-25 -  "Se um homem se casa com uma mulher e começa a detestá-la depois de ter tido relações com ela, acusando-a de atos vergonhosos e difamando-a publicamente, dizendo: ‘Casei-me com esta mulher mas, quando me aproximei dela, descobri que não era virgem’, o pai e a mãe da jovem pegarão a prova da virgindade dela e levarão a prova aos anciãos da cidade para que julguem o caso. Então o pai da jovem dirá aos anciãos: ‘Dei minha filha como esposa a este homem, mas ele a detesta, e a está acusando de atos vergonhosos, dizendo que minha filha não era virgem. Mas aqui está a prova da virgindade da minha filha!’ E estenderá o lençol diante dos anciãos da cidade. Os anciãos da cidade pegarão o homem, mandarão castigá-lo e o multarão em cem moedas de prata, que serão entregues ao pai da jovem, por ter sido difamada publicamente uma virgem de Israel. Além disso, ela continuará sendo mulher dele, e o marido não poderá mandá-la embora durante toda a sua vida. Se a denúncia for verdadeira, isto é, se não acharem a prova da virgindade da moça, levarão a jovem até à porta da casa de seu pai e os homens da cidade a apedrejarão até que morra, pois ela cometeu uma infâmia em Israel, desonrando a casa do seu pai. Desse modo, você eliminará o mal do seu meio.
Se um homem for pego em flagrante tendo relações sexuais com uma mulher casada, ambos serão mortos, tanto o homem como a mulher. Desse modo, você eliminará o mal de Israel.
Se houver uma jovem prometida a um homem, e um outro tiver relações com ela na cidade, vocês levarão os dois à porta da cidade e os apedrejarão até que morram: a jovem por não ter gritado por socorro na cidade, e o homem por ter violentado a mulher do seu próximo. Desse modo, você eliminará o mal do seu meio. Contudo, se o homem encontrou a jovem no campo, a violentou e teve relações com ela, morrerá somente o homem que teve relações com ela;" 

O capítulo 20 do Livro de Levítico prevê hipóteses de pena de morte por crimes de incesto ou desrespeito à família. 

Falando sobre meduinidade, em Levíticos, Lv 20:27 está escrito que ”Qualquer homem ou mulher que evocar os espíritos ou fizer adivinhações, será morto. Serão apedrejados, e levarão sua culpa”. 

Ainda em Levíticos - Lv 24:10-16, sobre blasfemar contra Deus: "O filho de uma mulher israelita, tendo por pai um egípcio, veio entre os israelitas. E, discutindo no acampamento com um deles, o filho da mulher israelita blasfemou contra o santo nome e o amaldiçoou. Sua mãe chamava-se Salumite, filha de Dabri, da tribo de Dã. Puseram-no em prisão até que Moisés tomasse uma decisão, segundo a ordem do Senhor.” Então o Senhor disse a Moisés: “Faze sair do acampamento o blasfemo, e todos aqueles que o ouviram ponham a mão sobre a sua cabeça, e toda a assembleia o apedreje. Dirás aos israelitas: todo aquele que amaldiçoar o seu Deus levará o seu pecado. Quem blasfemar o nome do Senhor será punido de morte: toda a assembleia o apedrejará. Quer seja ele estrangeiro ou natural, se blasfemar contra o santo nome, será punido de morte." 

Novamente em Deteuronômio Dt 21:18-21, agora sobre filhos desobedientes: “Se alguém tiver um filho rebelde e incorrigível, que não obedece ao pai e à mãe e não os ouve, nem quando o corrigem, o pai e a mãe o pegarão e o levarão aos anciãos da cidade para ser julgado. E dirão aos anciãos da cidade: ‘Este nosso filho é rebelde e incorrigível: não nos obedece, é devasso e beberrão’. E todos os homens da cidade o apedrejarão até que morra. Desse modo, você eliminará o mal do seu meio, e todo o Israel ouvirá e ficará com medo." 

Já no Evangelho, acusado de blasfêmia, Jesus é ameaçado de apedrejamento:
 "As autoridades dos judeus pegaram pedras outra vez para apedrejar Jesus. Então Jesus disse: «Por ordem do meu Pai, tenho feito muitas coisas boas na presença de vocês. Por qual delas vocês me querem apedrejar?» As autoridades dos judeus responderam: «Não queremos te apedrejar por causa de boas obras, e sim por causa de uma blasfêmia: tu és apenas um homem, e te fazes passar por Deus."

Lembremos que somos herdeiros diretos desta cultura de exclusão e morte. Se por um lado o antigo testamento traz pérolas lindas, tais como o salmo 23 de David, também possui pontos complexos, ultrapassados e descabidos. 

Mas também sabemos que se trata de um estado transitório, até que venhamos a praticar o bem, o amor, sem falsas identificações com a materialidade da existência corpórea. Ainda precisamos dos erros para chegarmos aos acertos, então seguimos em frente, usando nosso livre-arbítrio, até aprendermos de vez quem somos e o que devemos realizar no aqui e no agora. 
Teremos atitudes descabidas até encontrarmos o caminho do equilíbrio.

Aliás, num destes clássicos casos de estupidez humana, lemos no evangelho segundo João, no capítulo 08, que certa vez Jesus fora procurado por um grupo de fariseus e escribas que pediam o apedrejamento de uma mulher, dita adúltera. Jogando-na perto dele e aproveitando para ver sua reação diante da Lei mosaica, questionaram: "Mestre, esta mulher foi apanhada, no próprio ato, adulterando. E na lei nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas. Tu pois que dizes?” Segundo João, a intenção deles seria colocar Jesus em maus lençóis, para terem do que acusa-lo. Entretanto, após silenciar e riscar o chão com seu dedo, o Mestre levantou-se e disse: “Aquele dentre vós que estiver sem pecados, que atire a primeira pedra”. Foi o suficiente para despertar aquelas consciências para uma dolorosa realidade - a de que não há neste mundo quem jamais tenha realizado algum mal a si mesmo ou a outrem. Foram todos jogando as pedras, os mais velhos primeiro, e saindo, silenciosamente. No final, sobram Jesus e a mulher. Ele, voltando-se para ela, questiona: "Mulher , onde estão aqueles que te condenavam? “ “Se foram, Senhor”. “Também eu não te condeno. Vai e não peques mais…” 

A frase, repleta de sabedoria, ficou tão conhecida que ainda hoje é usada em inúmeras situações, tendo virado até tema de samba, na caneta do querido compositor Ataulfo Alves: “Atire a primeira pedra aiaiá, aquele que não sofreu por amor…” 

Condenar pessoas não é cabível, primeiro porque  nosso telhado é de vidro (vidro fino!). Segundo porque, quanto mais maduros espiritualmente, melhor compreendemos que tudo faz parte do nosso crescimento. Se Deus nos permite nosso livre-arbítrio, quem somos nós para negá-lo a outros?

Orientação sexual, raça, credo, opinião política, visão de mundo… nada deve nos fazer atirar pedras, jamais, sejam elas metafóricas ou não.
Nem mesmo quando estamos diante de criminosos!

Quando estamos na posição daquele que erra, o fazemos por ignorância.
Quando na posição dos que atacam aquele que erra, o fazemos por projeção (que também tem a ignorância como base);
Quando na posição do público, daquele que observa e ajuda na promoção da condenação e ataques, o fazemos pelos mesmos motivos.
Portanto, nos cabe muito cuidado e atenção, pois podemos rapidamente passar de uma posição à outra, em pouco tempo.

O melhor lugar para nós é e sempre será o da ponderação, da calma e compreensão.

Devemos observar, acolher, amar. 
Sim, isso não implica em deixarmos de imprimir um valor ao que vimos ou ouvimos. Podemos sim discordar ou concordar, até mesmo nos defender, afastar, mas não atacar, tampouco odiar o outro pelo que ele é ou representa.
Lembremos que a vida nos instrumentaliza, constantemente. E muito do que as pessoas fazem só o fazem por terem recebido estímulos ruins de outros ou ainda pela privação de amor.

Aliás, recordemos que somente o amor pode transformar pessoas, transformar o mundo. Só quando acolhemos o outro, entendendo que só sabem amar aqueles que receberam amor, podemos efetivamente alterar o rumo das coisas, positivamente. 

Finalizando, deixo aqui um trecho de entrevista do documentário francês HUMAN, parte 1, em que um assassino americano dá seu testemunho sobre sua aprendizagem a partir do acolhimento daquela que poderia ser sua maior inimiga na Terra. 

Que este video possa tocar seu coração, como tocou o meu. É o que desejo.