quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Espírita, antes de mais nada.

Quem me conhece sabe que, antes de mais nada, me apresento como Espírita. Isto tem uma razão de ser: a Doutrina é, também, filosofia, portanto norteia minha existência através de sua reflexão, de seus axiomas. Jamais porque pretendo algum proselitismo. Respeito todas as formas de crer (e de não-crença religiosa) e entendo que cada qual tem o direito de trilhar os caminhos de espiritualidade (ou não-espiritualidade) conforme deseja (ou possa).

Desta maneira, digo também que sou Psicóloga, porém tenho uma base que me orienta nas questões do psiquismo. Para mim, o humano é um ser bio-psico-sócio-espiritual - quando nasce não é apenas uma folha em branco, mas traz tendências, saberes inconscientes e muito material inacessível a nós.  Ele é corpo, mas possui processos psíquicos, sendo amplamente influenciado pelo meio onde está inserido (influenciando-o, mutuamente). 

Mas não apenas isto: todos temos uma dimensão de transcendência (o "Deus está em vós"- ensinado por Jesus) - um aspecto da alma que jamais adoece e que pode ser acessado, dando-nos o impulso para a transcendência, para a superação. Sendo assim, embora reconheça a contribuição inestimável da psicanálise, com as questões do inconsciente, suas tópicas, defesas e outros conceitos, meu olhar vai também em direção a um humanismo que carrega em si a questão espiritual e sua tendência atualizante, evolutiva. Isso em nada diminui minha busca científica, ao contrário.  Não faz da minha práxis algo do tipo salada mista, ou salada mística (como preferir!), mas um fazer que compreende este olhar que segue além do plano material. Comungo com Viktor Frankl, com Carl Rogers, ou mesmo com Hellinger, aliás.

Porém também me ocupo, levo em conta os porões  do inconsciente e nosso lado mais sombrio com coragem, lucidez e boa vontade. Porque acredito que só quando reconhecemos nossos monstros mais secretos, aceitando-os como são é que conseguimos dar a eles um lugar dentro da realidade consciente, com possibilidades de abrandar sua força sobre nós, tornando-os gerenciáveis e, se possível, extirpando-os. 

Ainda dentro desta filosofia, tento ser mãe, esposa, amiga, escritora, fotógrafa e filha. Se cometo erros? Sim, claro!  Mas tento me manter  firme dentro do roteiro que escolhi, usando este "waze" existencial.

Aliás, posso dizer que me tornei vegetariana justamente por levar em conta os preceitos que decidi abraçar. Seria um contra-senso continuar nutrindo meu corpo com alimentos advindos do sofrimento/morte de outros seres.

Quando fotografo os elementos da natureza busco Deus em cada Ser. Também aí estou sendo Espírita. Quando me aborreço comigo mesma, por conta de alguma "pisada na bola", ou  quando toco uma canção no meu violão, estou sendo Espírita. 
Até quando decido me calar ou dizer algo específico...

Poderiam dizer que existem outras filosofias que carregam estas tendências. Sim, eu sei. A filosofia Budista chega bem perto, aliás. Então, por que não sou Budista? Porque não acredito na metempsicose e, para mim, existe uma força cósmica soberanamente inteligente e amorosa, a que chamamos Deus. 
E por que será que não sou hinduísta, já que para eles o Ahmisa (não-violência) está na base, assim como a questão da divindade em cada um, a reencarnação, etc.? Porque também não sou a favor da manutenção das castas* - tenho uma crítica social totalmente cristã (de esquerda, portanto), onde não cabem privilégios para uns em detrimentos de outros. Enfim, existem outros pontos, mas já bastaria este para justificar minha decisão.

Escrevo isso não para influenciar pessoas, mas para dizer que (como um desabafo) enquanto vida em mim existir, continuarei divulgando a necessidade do amor a todas as criaturas, tanto para com os homens, mulheres e crianças (por isso escolhi a Psicologia), como  para com os animais, vegetais e mesmo os elementos de onde se originam e se mantém todos os tipos de vida: ar, terra e água. 

Também escrevo para dizer que não acho "menos espírita" aquele que, assim como eu, ainda derrapa nas estradas da vida. O que já faz isso mas não faz aquilo outro..  Aliás, julgar o fazer dos outros não está no roteiro deste Blog, nem da minha vida. Apenas falo de mim, das minhas escolhas... e convido a quem quiser/puder escutar este chamado Espírita a este pensar/repensar das próprias escolhas. 
Apenas isto. 

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*Em textos clássicos do hinduísmo, como os cânticos do Rig Veda (2400-1000 a.C.) ou as leis de Manu (500 a.C.), já se encontram alusões à existência de quatro varnas que dividiam a sociedade: os brâmanes (sacerdotes e intelectuais), os xátrias (guerreiros, administradores e monarcas), osvaixás (comerciantes e agricultores) e os xudras (serviçais em geral). Alguns desses textos clássicos representam códigos religiosos-legais que regulamentam condutas sociais, profissionais, aspectos morais e éticos.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

O Avesso Da Indiferença

Fui dormir e acordei com um assunto martelando a minha mente.

Quero descobrir caminhos. Sempre quis, aliás.
Desta vez, caminhos que me ajudem a entender qual o avesso da indiferença. Aquele lado que nos faz “pessoas de valor”, como dizia minha avó; os caminhos de identificação com o lado bom de cada um e não com o irracional da totalidade.
Um meio de resgate da nossa própria humanidade.
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Faz pouco tempo, ouvi de um psicólogo uruguaio, Alejandro de Barbieri, que tigres não se destigrizam, mas humanos, às vezes, se desumanizam.
É isso. Parece-me que estamos nos desumanizando por nos identificarmos com o não-humano, com o irracional, com o animalesco. OU apenas com o cultural.
Com isso, cabe ao indivíduo refletir sobre esta determinação social, sobre as injustiças, e, inclusive, sobre o aspecto contraditório do termo “progresso”.
As tais ‘marteladas’ na minha mente estão mais fortes, nos últimos dias, por conta de algumas notícias, contudo o certo é que, desde há muito, busco compreender os processos sociais, suas armadilhas e ajustes próprios, uma vez que faço parte deste todo que me envolve e no qual contribuo com minha parcela de influência.
Os jornais e revistas têm sido duros conosco. Diuturnamente despejam na nossa cara este lado sombrio de nossas almas, entretanto, já que sei do fato de que somos possuidores de outros aspectos, sadios, divinos, venho aqui evocá-los, tentando mostrar que em nossa trilha existem pedras gigantescas, muitas delas, formadas pelo nosso orgulho e egoísmo, e estas passam despercebidas, devido a nossa alienação existencial.
Uma destas tristes notícias veiculadas durante a semana pela mídia foi sobre o atentado ocorrido na França, contra os cartunistas da revista Charles Hebdo. Todo ou quase todo o país, principalmente aqueles que transitam pelas redes sociais, souberam deste trágico episódio e se sensibilizaram sobremaneira, identificando-se com aqueles que foram brutalmente mortos pelos terroristas islâmicos, em represália a um desenho de mal gosto, veiculado pela revista, ironizando o ícone espiritual do islã, Maomé. Não entrarei em análises sobre a tal charge e os crimes em si, uma vez que diversas pessoas já o fizeram, de forma magistral, então manterei o foco no sentimento exalado nas redes sociais, de total solidariedade aos mortos e seus familiares, com inúmeras postagens e imagens comoventes.
A outra notícia que também reverbera em mim, diz respeito ao Grupo extremista Boko Haram – um grupo radical islâmico que intensificou seus ataques nas últimas semanas na Nigéria e assumiu a autoria do massacre de mais de duas mil pessoas, ameaçando inclusive atravessar as fronteiras rumo a Camarões, aumentando o terror em toda a região.
Trata-se de uma seita que virou grupo armado, para a desgraça de muitos.
Moradores nigerianos, fugitivos, disseram que a maioria das vítimas é de crianças, mulheres e idosos que não conseguiram escapar dos insurgentes.
Fazendo rápida comparação, seja pelo tamanho e incidência das manchetes sobre cada um dos episódios ou a divulgação dos mesmos nas redes sociais, podemos inicialmente dizer que o fato na França, embora com um número muito menor de vítimas envolvidas, causou muito mais manifestações das pessoas, com frases e textos ressentidos, slogans apressados e discussões acaloradas, em comparação com a questão nigeriana. Uns defendendo apenas os cartunistas e a liberdade de expressão, outros desapontados com a falta de respeito para com o sagrado, nesta e em outras publicações.
Já a notícia sobre os milhares de mortos na África, ao menos em minha timeline, não recebeu nenhum compartilhamento, embora alguns jornais tenham relatado a respeito.
Como já disse acima, não quero aqui discutir a natureza dos crimes ocorridos, porque isso não retrata a gênese da questão. Gostaria de discutir, em um texto realmente despretensioso, o porquê de nos identificarmos mais com os franceses que com qualquer africano, seja ele na Nigéria, Camarões ou Madagascar ou, aproximando ainda mais nossa lente emocional, por que não nos identificamos também com os meninos e meninas que vivem nas ruas, ou nas periferias de nossas cidades e que são assassinados brutalmente, todos os dias!
Mais que isso: quero questionar aqui a razão pela qual desconsideramos uns, valorizando outros e qual seria um possível caminho de reconciliação com o todo humano.
Primeiramente analisemos quem são os franceses envolvidos no episódio:
Brancos, classe média e alta, ocidentais, vestem-se e se alimentam de forma parecida com a nossa, possuem famílias, rotinas muita vez comuns, envolvendo escolas para as crianças e trabalhos para os adultos, sonhos de consumo, etc.
E os Africanos, quem são? Na maior parte, negros, pobres, pouca escolaridade.  Alimentam-se com o pouco que conseguem. São possuidores de sonhos próprios, embora muitos talvez sejam até impossíveis de se realizar. Ah, sim! Também têm suas famílias, sentem medo, frio, fome ou alegrias, como outros terráqueos.
Então, se descascarmos toda esta cebola ardida, o que encontraremos de singularidades entre nós, brasileiros, e eles, franceses, está encerrado nas questões socioculturais. Agora, e o que temos em comum com todos eles, africanos, franceses ou qualquer outro ser humano da Terra?
Sim, a nossa humanidade.
Nossa capacidade de vibrar, de nos emocionar, de sentir empatia, compaixão, de investirmos energia em coisas futuras, previamente arquitetadas por nossa mente, que foi sendo desenvolvida ao longo dos milênios.
Quando vejo milhares de pessoas nas ruas da França, em homenagem aos mortos no atentado à revista, me pergunto: e quem irá às ruas pelos nigerianos? Quem se movimentaria em prol de povoados dizimados, crianças assassinadas a sangue frio, idosos abandonados à própria sorte? Quem? Não, ninguém irá. Isso porque até mesmo os Africanos já se acostumaram a isso – a estarem sozinhos em qualquer luta que fosse, sem manifestações que nunca serão ouvidas pelo mundo afora.
Mas, por que isso?
Porque, socialmente, sempre fomos diferentes deles.
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Então, ainda resta a pergunta: qual o avesso da indiferença nossa de cada dia? Como podemos desvelar o caminho que nos unirá ao todo, identificando-nos com cada irmão e não apenas com o social mais desumanizado?
A resposta me parece estar na nossa essência.
No caminho do autodescobrimento, precisamos, obrigatoriamente, passar pela esquina da reflexão.
Então, afinal, quem somos nós?
O que é o cerne de Ser Humano?
Qual é esta nossa essência?
Arrisco dizer que ela é muito anterior à cultura. Nossas disposições de vinculação, aquelas que nos impulsionam ao coletivo fazem parte dela. Portanto, está antes do próprio coletivo. Ou seja, para nos re-descobrirmos, teremos de nos despir da cultura na qual estamos inseridos.
Façamos um rápido exercício:
Hoje não somos mais ocidentais, não nos vestimos de determinada maneira, nem comemos determinados alimentos. Somos apenas humanos, todos nós. Temos corpos e mentes, necessidades, medos e anseios. Temos sonhos…
Nós, os franceses, os africanos, os russos… todos!
Esta é a única via de união possível. Nada de religiões, ciências, filosofias, políticas ou coisas afins. Somente a essência. Esta é uníssona, vibra em mesmo tom, caminha em conjunto, forma um mesmo leito de rio.
Ou seja, nos unimos por nossa própria humanidade.
Portanto, quando nos desumanizamos junto ao irracional do todo, nos desconectamos de nossa própria essência, somos injustos, cegos… e, por fim, adoecemos.
Adoecemos por nos comportarmos como loucos, por perdermos o contato com nossa própria realidade, com aquilo que verdadeiramente somos.
Para além daquilo que nos toca porque surge dos aspectos socioculturais, precisamos nos enternecer, no comover com o que é anterior, aquilo que brota na alma de todos. Precisamos nos ligar com a dor, as alegrias e os sonhos dos outros humanos apenas por eles serem humanos. Nada mais.
Só assim conseguiremos, por fim, salvar a nós e ao mundo que nos abriga.
Claudia Gelernter

Apenas Punir e Encarcerar, Se Podemos Ressocializar?

Muito temos discutido, nas últimas semanas, sobre a questão da redução da maioridade penal no Brasil. Embora as evidências robustas, apontando para o fato de que se trata de uma medida equivocada, porque injusta e ineficaz (sob o ponto de vista da violência social), a verdade é que muitos têm trabalhado para que se efetive a tal redução, infelizmente.

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Enquanto lutamos por esclarecer as pessoas a respeito deste tema e, já que nosso olhar tem se voltado um pouco mais para o sistema prisional brasileiro, sinto-me impulsionada a contar certa experiência que tive, quase no final da minha graduação em Psicologia, quando conheci um presídio, na cidade de Mogi Mirim, com capacidade para 214 detentos. Tratava-se de um Centro de Ressocialização, projeto e obra do então governador do Estado de São Paulo, o Sr. Mário Covas. Lá, cada homem tinha a sua cama; cada cela, o seu cuidado; cada espaço, o uso ideal.
Todos trabalhavam e estudavam, recebendo cuidados médicos, psicológicos e odontológicos e, embora reunidos ali pelos mais variados tipos de crimes, as regras eram claras para todos: só ficaria no presídio aqueles que não fizessem parte de facções criminosas, os de baixa periculosidade, os que trabalhassem diariamente, com uma folga na semana, os que estudassem e ainda realizassem obras sociais. Hortas gigantescas, oficinas de sapateiros, espaços de artesanato e cantina com variados produtos eram mantidos pelos detentos, visando ao sustento próprio, assim como pequena renda que deveria ser enviada aos familiares.
Faziam a manutenção geral do complexo, pintando paredes, lavando piso, consertando estragos. Cozinhavam, lavavam, passavam e serviam.
Enfim, o que não se via naquele espaço eram pessoas desocupadas, envolvidas em brigas ou fomentando outras encrencas.
Sempre que eu chegava para uma nova visita, eram os próprios presos que abriam os portões e me ajudavam a retirar do carro os livros que eu levava para doar à biblioteca do presídio.
O diretor, sempre calmo e cordial, falava daqueles homens com respeito, muitas vezes lamentando a situação de alguns, por saber que já estavam arrependidos de seus atos, prontos para a liberdade total, mas que teriam ainda de cumprir suas penas de reclusão.
Quando questionados, os presos diziam: “Dona, bem melhor aqui que num presídio normal, pois lá é o verdadeiro inferno, ninguém sai melhorado, sai é bandido de verdade…”
E, como não poderia deixar de ser (afinal, quando tratamos um ser humano como um ser humano, o resultado só pode ser esse), a reincidência daquele presídio não chegava a dois dígitos (8%) enquanto que no tradicional complexo de Hortolândia, também no interior do Estado, na época tínhamos a vergonhosa marca dos 83%.
Então, podemos nos perguntar: Por que não construímos mais presídios como esse, cada qual de acordo com o perfil dos presos ali reunidos (de baixa, média ou alta periculosidade), com um trabalho multidisciplinar de apoio e desenvolvimento daquelas pessoas?
Parece-me que temos dado preferência aos depósitos (semi) humanos, infernos do crime, indústria de bandidos. Preferimos encarcerar e punir os “desviados” da sociedade, queremos vingança, sem dar-lhes nenhuma chance de recolocação social. Fingimos que a culpa da violência é somente deles e seguimos os dias, tentando ganhar dinheiro suficiente para pagarmos a blindagem dos nossos carros ou os muros dos nossos condomínios.
A verdade é que a quase totalidade dos presos são os excluídos, os de baixa escolaridade, os pardos, os negros, os filhos da periferia. Não encarceramos os do nosso meio, mas os daquela laia.
E, sob a desculpa de que um Centro de Ressocializaçao custa caro aos cofres públicos, governantes têm preferido empilhar estas pessoas em pequenas celas, deixando-as à mercê da lei do cão, precisando vender a alma em troca da própria vida.
Em tempos de discussão sobre redução da maioridade penal, cabe-nos perguntar também para onde irão estes adolescentes, quando retirados da sociedade.
A Psicanalista Maria Rita Kehl, em um resumido artigo escrito para a Folha, comentou: “As crianças arregimentadas pelo crime são evidências de nosso fracasso em cuidar, educar, alimentar e oferecer futuro a um grande número de brasileiros. Esconder nossa vergonha atrás das grades não vai resolver o problema.” 
Aos que acham que a violência irá diminuir, basta breve leitura de algumas das linhas dos indicadores disponíveis em sites confiáveis para dissolver esta ideia reducionista, absurda.
Se hoje os adolescentes estão “protegidos” pelo ECA, tendo de cumprir pena, mas com medidas de ressocialização, amanhã, a situação poderá se agravar, caso a lei seja efetivamente alterada.
E, com tais complexos superlotados, qual será, então, a nova proposta de solução, senão tornar tudo isso um grande negócio privado, capaz de gerar bom lucro para o bolso de alguns?
Quem sabe assim, a execrável frase dos conservadores de plantão deixe de ser pronunciada. Afinal, bandido bom não será mais o bandido morto, mas sim, bandido preso. Atualmente nos Estados Unidos, o incentivo de promoção de carreira dos policiais é o número de prisões realizadas. E lá está a maior população carcerária do mundo. Estão prendendo até crianças vendendo limonada no quintal. (Ver vídeos abaixo)
Porque, no admirável mundo capitalista, não apenas time is money: O crime também pode e deve virar dinheiro (para as corporações).
Claudia Gelernter

Comunicação Para Comunicar (e Solucionar).


11781716_484975484996076_3392261637842961550_nExiste uma ênfase no mundo empresarial para as questões da comunicação. Isso se justifica, uma vez que os grandes administradores já se atentaram para a prioridade na gestão de pessoas e métodos para uma comunicação eficiente, visando a maior lucratividade.
Chefes, subordinados e afins precisam se comunicar bem, calmamente, objetivamente, sem infantilizações ou ataques de cólera, afinal não existe quem queira perder o emprego ou o possível lucro por causa de uma frase mal formada ou mal falada. Ademais, a “máquina” precisa funcionar com eficiência, sob risco de se enfraquecer diante das crises que, vez ou outra, aparecem por aí. Cliente sempre tem razão e a organização precisará caminhar saudável, forte e plena, sem brigas internas, nem cisões alarmantes.
Mas, tanto aqui como em outros pontos cruciais da sociedade, o que vemos não é uma alteração de comportamento nas questões da comunicação, surgida por conta de uma mudança emocional, mas apenas adaptativa, circunstancial, por interesse material. “Sou polido onde preciso ser, já em casa, posso ser quem sou”, dizem alguns.
O problema nesta forma de pensar é que a infelicidade chega a galope. Não conheci nenhuma pessoa realmente feliz porque conseguiu manter o emprego sem dar conta de instituir relações saudáveis em casa.
Aliás, sob o ponto de vista familiar, raramente encontro aqueles que se comunicam com eficiência e maturidade, e os resultados são negativos, quando não, caóticos.
Tenho visto maridos entrando na caverna, acuados, enquanto esposas falam e choram suas mágoas para as paredes. Filhos usando a internet como cordas vocais, mas em silêncio absoluto na mesa da sala de jantar, como estranhos que, “por uma coincidência” necessitam dividir uma mesa de fast food, na lanchonete da esquina.
Celular virou pop star na sala, na cozinha, no banheiro e nos quartos. Muito mais interessante que a própria TV – a mais antiga rival dos papos em família.
Será que o problema está no “maldito” aparelho ou na forma como nos comunicamos quando acaba a bateria?
Se preferimos as milhares de postagens com frases clichês e imagens bonitinhas deve ser porque elas nos falam justamente sobre nossas crises e carências, confirmando nossa dor solitária, embora coletiva. Rubem Alves já dizia que “cada época fala sobre aquilo que lhe falta”. É isso.
Seja nos papos intermitentes de cotidiano ou quando decidimos por uma D.R. (discutir a relação, como se fala na “gíria” atual) o que geralmente se vê são jogos emocionais que acontecem através de modos diferenciados e criativos. Os diálogos (quando existem diálogos) não servem para comunicar algo sobre os sentimentos, percepções ou considerações outras, mas para manutenção das defesas e posições. Por vezes, desejamos muito mais atacar, manipular ou nos defender, que informar.
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Fazer fofocas, rotineiramente, pode indicar uma busca de alivio de consciência. Quando falamos mal dos outros queremos dizer que somos melhores que eles, quando não desejamos encobrir o que temos de igual ou pior que estes tais a quem nos referimos.
Choros e muxoxos durante a comunicação sugerem uma regressão à infância com clara tentativa de manipulação, pois quando crianças nos acostumamos a usar destes recursos para convencer os adultos a realizarem nossas vontades infantis.
Silêncios na fala com expressões de desagrado na face [tão comum entre casais] é um tipo de ‘comunicação manca’, que chega muito mais para testar se a bola de cristal do outro é eficiente do que realmente informar algo relevante. O “comunicante” está mais preocupado em imputar uma culpa ao outro por sua incapacidade premonitória, que ajeitar uma situação de forma adulta.
Gritos coléricos são o resultado de emoções ligadas ao medo e à posse.
Dizem por aí que os gritos só chegam quando já perdemos os argumentos. No fundo, parece ser muito mais um ato de desespero que de comunicação.
Ironias descabidas servem para tentar informar que aquele que está ironizando é bem mais inteligente, esperto ou bondoso que o receptor da mensagem, quando na verdade, traz em sua estrutura básica, toques de sadismo. Quem quer dizer que a postura do outro não está sendo adequada pode e deve falar com empatia, sem provocações, pois os resultados das ironias são tão deficientes quanto os outros acima expostos.
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Comunicação que comunica é aquela que usa de coerência, assertividade, calma e didática. Não fala mais que o necessário [e o suportável], não grita nem fere, mas informa e inclina, com o poder da paciência.
Sai de uma boca para outros ouvidos com a clara intenção de buscar mais soluções que culpados; mais equilíbrio que desarmonia; mais compromisso que ruptura. Tem a empatia na base de seus argumentos.
Aliás, um ponto central na teoria da Comunicação Não-Violenta, proposta pelo Psicólogo Marshall Rosenberg, em seu livro de mesmo título, é de que precisamos resgatar o que há de mais genuíno no outro: suas emoções, sua força criativa, seu lado humano e bom, através de uma empatia real, nascida não na forma como nos comunicamos (aqui já falamos do efeito), mas de nossa intenção sagrada de ajudar. A comunicação, por conseqüência, será eficiente e positiva, porque pautada na força irresistível da compaixão. [proposta de Rosenberg – link aqui – https://pt.wikipedia.org/wiki/Marshall_Rosenberg]
No prefácio da obra citada, Arun Gandhi, neto de Mahatma Gandhi e fundador do Instituto Gandhi pela Não-Violência, explica que A não-violência significa permitirmos que venha à tona aquilo que existe de positivo em nós e que sejamos dominados pelo amor, respeito, compreensão, gratidão, compaixão e preocupação com os outros em vez de sermos pelas atitudes egocêntricas, egoístas, gananciosas, odientas, preconceituosas, suspeitosas e agressivas que costumam dominar nosso pensamento.” Resumidamente é, entre outras coisas, nos comunicarmos usando o que há de melhor em nós, deixando de lado defesas, medos, angústias ou outros problemas do nosso ego engessado.
Dentro deste contexto até aqui comentado, e devido à importância e urgência do assunto, nós, da Universidade Livre Pampédia tratamos de trabalhar também com a teoria da Comunicação não-violenta, tornando-a um dos nossos eixos temáticos, por entendermos que muitas pessoas passam uma vida inteira se comunicando de maneira equivocada ou até mesmo violenta, sem que se darem conta disso, transformando o mundo interno e externo em um verdadeiro campo de guerra.
E isso se amplia no campo social, no macro, logicamente.
Por fim, considero que “comunicar comunicando” [e solucionando] é, por fim, uma arte. Aquele tipo de arte que se aprende [e que precisamos exercitar ao longo da vida!] com boa dose de compaixão, usando o pincel do bom senso e as tintas do bom humor.
E tenho dito!
Claudia Gelernter

Educação Para a Solidariedade

Nosso modo de ser e perceber o mundo se forma através das experiências vividas ao longo dos anos, principalmente as que foram aprendidas junto a pessoas mais significativas – nossos pais, irmãos e amigos.
E, neste caldo cultural, seguimos por aí, nutrindo nossas mentes nestas relações interpessoais, influenciando o meio com ingredientes nossos, subjetivos, que acabam por manter esta dialética, construindo a realidade que nos cerca.
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O que acontece é que nem tudo o que fazemos por aí parte do nosso campo consciente.
Muitas das nossas crenças, reações, sentimentos, estão em um plano pouco ou nada conhecido por nós.
Ficam “armazenados” no nosso inconsciente, porém nunca inativos. Mostram-se, justamente nos momentos de decisões, escolhas e modo de ver a vida.
Este aspecto individual pode ser levado ao macro, ao social mais amplo, respeitando-se as proporções. Muitas das características de determinadas culturas apresentam questões não sabidas, compreendidas, portanto, inconscientes.
Aliás, depois de conhecer a Psicologia Social, com seus esclarecimentos azedos, porém fundamentais, passei a me dar conta de que nem tudo o que nos parece rosa, em termos de sociedade brasileira, é assim tão suave.
Por exemplo – cresci escutando que o brasileiro possui alma solidária, é amigo de todas as nações, abre os braços para todos os necessitados.
E, devido a uma lógica psíquica, emocional, acreditei nesta informação, baseada em senso comum, precisando depois analisar determinadas situações e conceitos sob outro prisma.
A verdade, esta amiga de todas as horas é e sempre será a porta para as mudanças. Enquanto não vêm à tona, não há o que se fazer. Como alterar algo desconhecido?
No processo terapêutico trazer alguns materiais inconscientes ao consciente é de fundamental importância, para que sejam trabalhados, ressignificados. Claro que dentro das possibilidades egóicas do sujeito, porém, nada muda sem esta audaciosa viagem rumo a si mesmo, com direito a muitas emoções, nem sempre agradáveis, claro.
Falando, ainda, desta revisão do inconsciente brasileiro, digo que precisamos olhar mais de perto para esta questão da solidariedade, citada acima.
Costumamos nos auto intitular fraternos, cooperativos, solidários, amigáveis.
Não foi isso que a última pesquisa global, que mede o nível de doação – de recursos e tempo – das populações de 135 países, mostrou. Ficamos em Nonagésimo Lugar! Aliás, cabe dizer que caímos 36 posições neste ranking.
A pesquisa World Giving Index 2014 foi realizada pela ONG britânica Charities Aid Foundation e divulgada no Brasil na terça-feira (18/11) pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS). Nela, países como Mianmar – eminentemente budista e segundo colocado na pesquisa -, aparecem de forma destacada, graças a sua cultura popular de doação.
Já no Brasil, onde o cristianismo prevalece, o que temos visto é algo bem diferente do pensado.
Paula Fabiani, presidente do Idis, afirmou que “A doação em dinheiro não faz parte da conversa do brasileiro. Não se discute o que se faz de doação social ou qual organização se apoia. Lá fora isso é mais comum e faz parte da cultura do indivíduo desde criança. Nos Estados Unidos se discute isso desde a escola.” Percebe-se, então, que questões fundamentais são pouco exploradas, discutidas no Brasil.
Países que mais cresceram nos últimos anos, são também os mais solidários. Esta relação tem toda a lógica e nem precisa de uma análise mais aprofundada, mas deve nos servir de norte em diversas ações na área da educação.
A questão da solidariedade não é importante para angariarmos bons terrenos celestiais, como preconizam tantos religiosos por aí, mas para produzirmos terrenos sociais mais justos, menos predatórios.
Se existe um laço perverso nesta sociedade na qual vivemos, no qual a cultura de senzala prevalece, só poderemos alterar esta vivência centenária através de discussões amplas, irrestritas, em todos os níveis.
E, ainda falando em solidariedade, o apoio à educação entra neste cenário como algo de base, fundamental e urgente. Falamos de uma educação diferenciada e não apenas da transferência de conteúdos, claro.
Uma educação libertadora, que nasce com este desvelar, para desembocar em transformação social – nosso maior objetivo, aliás.
Claudia Gelernter

domingo, 29 de outubro de 2017

Lucano: um homem e sua trilha de superação

Quando entre os encarnados, Jesus costumava comentar que todos os males humanos tinham como gênese o orgulho e o egoísmo. Já sabemos que o primeiro costuma se desdobrar em vaidade, presunção, preconceito, isolamento e busca pelo poder. O segundo, quando presente, pode nos tornar sovinas, narcisistas, aproveitadores, gananciosos… e por aí, vai.

Já em Kardec compreendemos que, se nascemos no planeta Terra, perfeitos é que não somos. Ao contrário: reencarnar por aqui é sinônimo de grandes mazelas… 

Aliás, basta rápida observação para percebermos isto.

Por outro lado, estamos em evolução. E entendo que o fato de elegermos um ideal a seguir, um modelo moral ou mesmo de superação, nos torna mais seguros nesta trilha evolutiva, mais dispostos na marcha e melhor orientados no roteiro, afinal, se outros conseguiram atingir a sabedoria, por que não todos nós? Se somos filhos de um mesmo Deus, por que alguns estariam fadados ao fracasso? Jamais!

Penso que o tempo que levaremos até este feito grandioso acontecer (superarmos nossos vícios, angariarmos todas as virtudes e aprendermos sobre todas as coisas), correrá por conta do uso do nosso livre-arbítrio acrescido dos eventos sociais que nos influenciam nesta jornada. 
Digo isso porque de um lado temos a nossa responsabilidade, enquanto espíritos encarnados e, de outro, a responsabilidade do pequeno grupo que nos acolhe (família) e da sociedade em geral. Nem sempre conseguimos vencer nossas mazelas de forma mais ampla, principalmente quando a educação recebida não trouxe orientações amorosas…

Bem, conto a vocês que elegi, por motivos variados, Jesus como modelo e guia. E, em todas as manhãs, quando acordo, faço a prece pela Paz, que tem logo na sua primeira frase um acordo de compromisso: “Senhor, fazei-me instrumento de vossa paz…” O que significa dizer: "Senhor, trabalho para ti, em tua Seara. Me aceite sempre, por favor, e me ajude para que eu consiga manter este posto, porque sinceramente, sei que não será nada fácil…” 

Jesus representa minha aspiração maior, o trabalho espiritual feito, a linha de chegada após muitos tropeços e feridas. Depois disso, claro que terei bastante trabalho, mas será realmente incrível poder ajudar o Universo estando de posse de uma paz absoluta, imorredoura, permanente!

O que acontece é que, até lá, outros modelos devem me inspirar, principalmente nas questões de superação. Isso porque Jesus não precisou superar absolutamente nada. Ele já era perfeito, portanto, nada a superar no campo psicofísico, social ou espiritual. Não cometeu erros para precisar retomar o caminho do bem.

Entretanto, eu…

Joseph Campbell, o eminente psicólogo americano, após estudar um número considerável de mitos e lendas do mundo todo, de épocas variadas, descobriu que as grandes sagas contadas e escritas, representam nossa própria história emocional. Uma saga de superação. Todos passamos por grandes desafios em uma encarnação e precisamos encontrar, dentro de nós, elementos de transcendência, capazes de nos tornar fortes o suficiente para ultrapassarmos os entraves (mesmo o da própria morte) e sairmos deles melhorados, transformados, refeitos. 

Dentre os muitos modelos de superação, encontrei Lucano, uma alma que, há dois mil anos, reencarnou em Antióquia, nove anos antes de Jesus nascer.

Hoje ele é conhecido como São Lucas, por conta de seus "feitos milagrosos" como médico, mas não só. Lucano escreveu o maior dos evangelhos sobre a vida de Jesus e também o Ato dos Apóstolos, a pedido de seu amigo, Paulo de Tarso…

Lucano entrou em minha vida por influência materna. Ainda menina ela me dizia que gostaria de ter estudado medicina, mas que, por falta de oportunidades, acabou se formando enfermeira. 

Cresci vendo minha mãe cuidar de doentes de todo gênero, classe social ou idade. Vez ou outra, quando chegava em casa da escola, encontrava no sofá algum parente, amigo ou mesmo um desconhecido, recebendo ajuda. 

Via ela limpando feridas, trocando fraldas, dando banho, comida, água, vestindo, etc. Pacientes com traqueostomia eram cuidados por ela, sem receios.

E, sempre que eu estava por perto, acabava ajudando. 

Um dia, quando contava com 14 anos, minha mãe me entregou um livro escrito pela historiadora Taylor Caldwell para ler: Médico de Homens e de Almas. 

Disse: “A vida deste médico é minha fonte de inspiração… Leia!” 

Li o livro em duas semanas, entre risos e lágrimas. Fiquei fortemente impressionada! 
Foi quando pensei em me tornar médica. 
Mas a vida seguiu com suas demandas e, por fim, realmente me formei com vistas a tratar da saúde das pessoas, só que mental. Tornei-me Psicóloga.

Depois de muitos anos, minha filha também leu a obra… e se tornou médica. 

Parece-me que Lucano inspirou nosso fazer por aqui. Tanto que no vestibular em que ela foi aprovada, o tema da redação foi justamente a vida e obra de São Lucas!

Mas, falando ainda sobre o livro, devo confessar que, até então, tinha receio sobre a veracidade dos fatos na obra de Taylor, afinal tinha aspectos ficcionais, já que romanceado. 

No prefácio, a autora comenta que leu cerca de 1000 livros sobre Lucano antes de escrever sobre ele, ao longo de 46 anos.

Isso me deixou bastante confortável. Porém, quando soube que Emmanuel teria dito a Chico Xavier que Taylor naquela encarnação veio como mãe de Lucano, meu coração vibrou mais alto.

Sim, o livro traz muita inspiração e lembranças arcaicas daquela que fora sua mãe. Quando li o comentário de Emmanuel pude compreender a pergunta que Taylor coloca, ainda no prefácio: “Por que São Lucas foi uma obsessão para mim, e por que sempre o amei, desde a infância? Não sei...” 

O livro em questão narra a trajetória de uma alma cheia de fé e força, desde sua meninice, por volta de seus 08 anos de idade, até a fase adulta, com seus quarenta anos, quando se encontra e trava alguns diálogos com Maria, mãe de Jesus, e esta lhe conta detalhes sobre a vida (incluindo a infância) do querido Mestre…

Lucano sempre acreditou na existência de um Deus único, criador de tudo e de todos, mantenedor, protetor, amoroso e onipresente. Talvez por influência de seu pai, Enéas, que lhe contava, orgulhoso, sobre as histórias de antigos gregos que acreditavam na existência de um único Deus, a despeito de toda a mitologia em que aquele povo estava mergulhado.


Segundo historiadores, o filósofo Epimênedis (600aC), da ilha de Creta, afirmava que Deus era um só,  indo contra a crença da maior parte dos gregos. 
Passou décadas resmungando e trabalhando. Naqueles tempos difíceis não se deu conta de que jamais esteve longe de Deus, pois operava curas espantosas, impossíveis  aos olhos do homem comum.
Quando tomado de intensa dor, Lucano, em lágrimas abundantes, orou fervorosamente a Deus, pedindo ajuda para o amigo.

Conta-se que, certa vez, uma grande seca aconteceu naquela região. Após diversas tentativas de agradar aos inúmeros  deuses, um dos oráculos teria dito que deveriam procurar por Epimênedis, pois ele lhes diria como resolver o problema. Quando visitado, o filósofo teria dito que deveriam erguer um templo ao Deus único, desconhecido de todos e que, para isso, teriam de colocar ovelhas no alto da montanha observá-las. Para onde elas se dirigissem, lá seria o local apropriado. 
Ao fazerem isso, perceberam que os animais desceram a colina e seguiram rumo aos campos. E lá ergueram um templo  dedicado a este Deus… e a seca se foi.

Verdadeiro ou falso o episódio, o que se sabe é que pesquisadores realmente atestam o fato de que existiam pessoas monoteístas entre os gregos.

Talvez esta influência tenha chegado até Lucano, pois, segundo Taylor, desde menino, falava sobre Ele e com Ele…

Em sua infância, Lucano ligou-se sobremaneira à alma de Rúbria, filha de Diodóro, governador romano na Antióquia, senhor das terras onde sua família vivia, desde sempre. 

Seu pai, Enéas, antes escravo, fora libertado pelos pais de Diodóro, que os tratava com respeito e cuidado…

Lucano desde muito cedo demonstrou dons especiais para a cura. Sabia reconhecer e manejar as plantas, dizendo-se inspirado pelo Deus desconhecido…

Ainda menino, vira a grande estrela no céu, que apontava o nascimento do Messias - a estrela de Belém, que se movimentou pelo céu, rumo ao oriente. Estava junto de Keptah, o médico caldeu que trabalhava para a família de Deodoro e que também acreditava na vinda de um grande Mestre, por conta das escrituras de seu povo.

Acontece que Rúbria, sua querida amiga, sofria de uma doença grave, na época chamada de “doença branca”, hoje conhecida como Leucemia. 

Keptah sabia da gravidade do caso. E, embora tenha alertado o menino sobre o destino difícil da garota, Lucano continuou acreditando que o Deus desconhecido operaria um milagre, salvando-a, no momento certo. 

Em muitos momentos ele mesmo preparava remédios para a amiga, aliviando suas dores…

Mas o fato é que, a despeito de nossos desejos mais vivos e intensos, a morte nos visita, seja através de perdas materiais, físicas ou mesmo com o falecimento de pessoas amadas…

E assim foi com Rúbria. Ainda adolescente, piorou sobremaneira de sua doença;ca fatal. E em seu leito de morte, disse a Lucano que ele deveria compreender, aceitar e ser feliz, pois ela estava bem, em paz. 

Mas Lucano não aceitou o fato, vindo a desenvolver aquilo que hoje chamamos de luto patológico. Devido a sua relação de amor intenso e a certeza sempre presente da ajuda divina (seguida de enorme frustração), revoltou-se contra Deus, acusando-o de cruel e injusto. 

Dizia crer na existência Dele, mas não mais em seu amor e justiça.

Foi assim que decidiu desenvolver seu talento para a medicina, não em busca de amenizar sua própria dor, sua ferida, através de um sentido existencial, mas para duelar com o Criador, numa batalha inglória contra a morte.

Durante sua formação, em Alexandria, teve contato com grandes pensadores, de todas as áreas do saber humano. Tornou-se um bom matemático, ótimo pintor e exímio médico. 

Depois de formado, trabalhou em embarcações, tratando dos viajantes, fazendo longas viagens pelo mediterrâneo. Quando em terra, atendia os pobres e necessitados de toda ordem...

Em uma de suas navegações, chegou a curar todos os escravos confinados no porão, acometidos pela peste negra (incurável na época) usando alguns poucos recursos (água, sabão e alguns medicamentos contra dor). 
Segundo os relatos daqueles homens, Lucano vestia-se de luz intensa, quando focado no cuidado dos desvalidos.

Durante todo seu percurso como médico, priorizou o atendimento dos miseráveis, dos escravos, dos socialmente perseguidos e excluídos. Taylor narra encontros impressionantes, curas variadas e lutas intensas em seu coração amargurado.

Lucano afastou-se da mãe, após a morte de seu pai… afastou-se de amigos, colegas e todos aqueles a quem amava, por receio de novas perdas. Isolou-se do mundo, tornando-se amargo, triste, seco. 


Lucano alimentava-se mal, dormia pouco, sentia-se infeliz…Apresentava sintomas de um luto não elaborado, complicado, doentio.

Após muitos anos (mais de duas décadas de crises psíquicas/ espirituais), percebeu a mão amorosa do Criador, principalmente quando viu, atônito, a cura de seu grande amigo africano, cego por conta de uma surra violenta que sofrera. 

 Uma prece de todo o coração… que vibrou até as esferas mais elevadas... e que foi respondida, prontamente...

Após muitas crises, o médico reformado trabalhou o próprio remorso, transformando-o em reparação bendita, que nos atinge, até os dias de hoje.

Decidiu ir até Israel, para se encontrar com Maria - mãe daquele que efetuara inúmeros "milagres" e que era bendito por muitos pobres e desvalidos do mundo. 

Sentiu enorme atração por Jesus e, ao conhecer Maria, pode ter certeza absoluta de sua grandiosidade e amor sublime. 

Tempos depois deste encontro com Maria, Lucano conheceu Paulo de Tarso, e com ele fez viagens de apostolado, escrevendo o maior dos Evangelhos e o Ato dos Apóstolos, usando  em suas páginas diversos termos médicos (da época) e muita amorosidade. 

Só em seu evangelho encontramos dados da infância de Jesus, assim como referências a Maria de Magdala e outras mulheres. Curiosamente, as parábolas propostas não estão em ordem cronológica, mas, em muitos casos, intercalam a ajuda a um homem e depois, a ajuda a uma mulher…

Lucano por certo defendia a igualdade, a justiça, o amor, para além das questões culturais e de época.

Foi sim um exemplo de superação, de cuidado, de amor.

Do luto patológico, trabalhou as questões do talento, das feridas e da aceitação. Compreendeu que nada surge para nos destruir, mas para nos transformar. E sempre para melhor.

Mostrou que por mais nos afastemos da amizade com Deus, Ele jamais se afasta de nós e que sempre podemos retomar nossa essência, com sabedoria e paz.

E é por isso (e muito mais) que Lucano foi e ainda é um grande modelo para mim…
Para nós!