domingo, 14 de fevereiro de 2016

A DOR DA INGRATIDÃO


por Claudia Gelernter

Vivemos no planeta Terra. E isso significa diversas coisas. Uma delas é que temos muitas mazelas a resolver. Mazelas íntimas, do ego, da personalidade transitória. Alguns Espíritos comparam os habitantes da Terra com pequenos grãos de feijão. Existem uns maiores, outros menores. Uns mais escuros, outros claros, alguns furados, outros feios. Mas, no final das contas, 'somos todos feijões'. Não estamos muito distantes uns dos outros, embora por vezes nos sintamos superiores, devido a pequenas ações, quando, em verdade, ainda temos que batalhar para sermos verdadeiramente melhores - todos nós.

Em O Livro dos Espíritos, aprendemos que existem três categorias principais de Espíritos, de acordo com seu grau de evolução (moral e intelectual): ”na última, aquela que se encontra na base da escala, estão os Espíritos imperfeitos, caracterizados pela predominância da matéria sobre o espírito e pela propensão ao mal. Os da segunda se caracterizam pela predominância do espírito sobre a matéria e pelo desejo de praticar o bem: são os Espíritos bons. A primeira, enfim, compreende os Espíritos puros, que atingiram o supremo grau de perfeição” (Kardec, 1862)
A má notícia é que nós pertencemos (ainda) à categoria dos imperfeitos. Uns mais, outros menos, mas todos imperfeitos. Entretanto, também temos notícia de que a Terra está alterando seu estado, entrando em nova fase, chamada de Regeneração, onde os habitantes tendem mais ao bem que ao mal. Daí a necessidade de um contínuo empenho nosso para que possamos habitar uma Planeta melhor, porque mais justo e bom.

E dentro desta “boa batalha”, chamemos assim - um dos quesitos essenciais a serem desenvolvidos chama-se “resiliência”. Trata-se de um conceito sequestrado da Física, hoje largamente utilizado pela Psicologia e mesmo pela Ecologia. 

Segundo o Wikipédia, no campo da Física, o termo resiliência diz respeito à "propriedade de que são dotados alguns sub-materiais, de acumular energia, quando exigidos ou submetidos a estresse sem ocorrer ruptura. Após a tensão cessar poderá ou não haver uma deformação residual causada pela histerese do material - como um elástico ou uma vara de salto em altura, que verga-se até um certo limite sem se quebrar e depois retorna à forma original dissipando a energia acumulada e lançando o atleta para o alto.

Já em Psicologia, significa a capacidade de se reequilibrar, após alguma situação de angústia, de conflito psíquico, seja causado por impactos reais ou imaginários. Digo imaginários porque, em geral, costumamos aumentar nosso sofrimento para além do necessário, com fantasmas puramente emocionais, medos irracionais, porque nascidos de uma percepção equivocada sobre os eventos da vida. 

E, quando falamos de dores reais, intensas, profundas, a palavra Ingratidão nos vem à mente, quase que imediatamente. Não é a toa que o Espírito Santo Agostinho, no capítulo XIV de O Evangelho Segundo o Espiritismo, colocou a questão da ingratidão como ponto nevrálgico para o coração humano, dedicando um texto inteiro (o maior do livro, ditado por um Espírito, aliás), para tratar deste assunto, principalmente com relação aos filhos. Ditou ele que "De todas as provas, as mais penosas são as que afetam o coração.” Realmente. E a ingratidão surge como um dardo cheio de veneno, lançado por pessoas geralmente distraídas de sua missão pessoal, de sua essência sagrada. São os cegos espirituais do mundo, que não enxergam o bem que recebem e que mais tarde terão de ser ensinados pela Mestra Divina, chamada Dor. 

Mas, mantenhamos o foco naquele que recebe a ingratidão como pagamento de um bem realizado:

Em verdade primeiramente é preciso recordar que não existem vítimas. Se a prova surge, pode ser para buscar as profundezas psíquicas do aprendiz, avaliando se já consegue dar conta de determinados desafios. E, sendo esta uma enorme demanda quando falamos em questões do ego, do "pequeno eu",  será preciso desenvolver a resiliência (que serve para esta questão e todas as outras que envolvem desafios existenciais) - esta capacidade de reorganizar o mundo mental, mesmo com a experiência dolorosa.

Para tanto, considero três passos importantes:

1. Reconheçamos que todos somos imperfeitos: Tal constatação produz alívio imediato em nosso coração, pois nos damos conta de que também nós precisamos, com freqüência, do perdão alheio, senão do próprio Pai Celestial, uma vez que somos também ingratos, nas mais variadas situações (Por exemplo: raramente confiamos na Vida, na dinâmica da existência, com seus altos e baixos; Raramente agradecemos pela proteção diária; Poucos levam em conta a questão da interdependência planetária, deixando de observar certos cuidados para com o próximo e a natureza, de forma geral, quando, em verdade, deveriam se comportar de outra maneira, demonstrando gratidão à vida, etc…).  

2. Busquemos desenvolver a Compaixão: Jesus já alertava que não existe grande mérito em sermos bons e perdoarmos aqueles que já são benevolentes para conosco. Nesta situação estamos apenas realizando uma troca. Porém, quando conseguimos sentir  verdadeira compaixão por aqueles que nada tem a nos oferecer ao coração, tornamo-nos realmente grandes. Henry Wadsworth Longfellow certa vez escreveu que “se pudéssemos ler a história secreta de nossos inimigos, encontraríamos em cada vida tristeza e sofrimento suficientes para aplacar qualquer hostilidade de nossa parte”. Além disso, compadecer-se com os problemas dos outros não é ato que se restringe a questões materiais, como, por exemplo, uma perda significativa ou uma doença grave, mas também com relação a questões morais. Nem sempre o outro compreende a dinâmica da vida e o quanto é bom sermos bons. Por ignorância, erra, vindo mais tarde a colher frutos amargos. Compadecer-se deste tipo de semeadura eleva a alma em trânsito pela Terra, denotando grande resiliência e maturidade espiritual. Reflete a capacidade de sentirmos empatia, do quanto já somos conscientes do nosso papel e da necessidade de combatermos sofrimentos voluntários, através do equilíbrio mental, espiritual, físico e social. Estamos, concomitantemente, sendo bons para conosco, portanto.

3. Construamos pontes, sempre que possível: Uma comunicação eficaz, busca soluções e nunca culpados. Estejamos em contato com nossos sentimentos, pois quando mantemos um estado de consciência interior, deixamos mais claro nossos objetivos durante um diálogo. Então, se queremos realmente ajudar um irmão ingrato, não será atirando variadas pedras verbais ou mentais, mas expondo a dor causada de forma coerente e madura. Não devemos dar lições de moral com raiva e, por outro lado, devemos manter fé na justiça. Não cabe a nós punirmos os ingratos. A vida fará isso, caso seja necessário. Por fim, se o diálogo pessoal não for possível, que ele seja feito de forma mental, através de uma prece ou irradiações de amor.


Para melhor ilustrarmos este pensamento, vale recordar um dos contos de Jataka [autor de textos sobre as possíveis encarnações de Buda], chamado “O Gorila e o Homem”. Escreveu ele:

“Certo dia, um caçador adentrou a floresta, perdeu-se e caiu em um buraco profundo, do qual não conseguia sair. Ele gritou por socorro durante dias, ficando cada vez mais faminto e fraco. Enfim, o gorila o ouviu e foi até lá. Ao ver as paredes íngremes e escorregadias da cavidade. o gorila disse ao homem: “Para tirá-lo daí com segurança, primeiro vou rolar pedras aí dentro e praticar com elas”. O gorila rolou diversas pedras para dentro do buraco, uma maior que a outra, e tirou todas de lá. Finalmente chegara a vez do homem. Após subir com dificuldade, segurando-se em rochas e trepadeiras, ele tirou o homem de lá, e, com a última força que lhe restava, saiu do buraco. O homem olhou ao redor, muito feliz por ter sido salvo. O gorila, ofegante, deitou-se ao seu lado. O homem disse: “Obrigado, gorila. Você pode me guiar para sair da floresta?” E o gorila respondeu: “Claro, homem, mas primeiro preciso dormir um pouco para recuperar a energia”. Enquanto o gorila dormia, o homem o observava e começou a pensar: “Estou com muita fome. Sou capaz de descobrir como sair da floresta por conta própria. Ele é só um animal. Eu poderia bater uma dessas pedras na cabeça dele, matá-lo e comê-lo. Por que não?”. Então o homem ergueu uma das pedras o mais alto que conseguiu e atirou-a com força na cabeça do gorila. O gorila gritou de dor e sentou-se rapidamente, atordoado com a pancada, com sangue escorrendo pela face. Quando olhou para o homem e percebeu o que havia acontecido, lágrimas brotaram de seus olhos. Ele balançou a cabeça com tristeza e disse: “Pobre homem. Agora você nunca será feliz…”. 

Um  conto emocionante que certamente traduz diversas situações vividas na Terra, onde o ingrato não reconhece nem valoriza o bem recebido. 

Percebemos que a má vontade do homem tentou justificar a si mesma: “Ele é só um animal”. Naquele momento, o homem racionalizou, como forma de defesa íntima - isso facilitou a decisão pela ação nefasta. Só mais tarde poderá perceber que enganara a si mesmo…

Por outro lado, a bondade, a compaixão do gorila foram sua própria recompensa. Não fora tomado por raiva ou ódio. A primeira flecha moral atingiu-o na forma de uma pedra; não havia porque acrescentar injúria ao ferimento com uma segunda flecha de rancor, atirada por ele mesmo. Perdoou, tão logo recebera a ofensa. Não viu necessidade de desforra, pois sabia que o homem já não conseguiria ser feliz. Agiu com equanimidade, portanto.
O gorila foi resiliente. Apesar da experiência dolorosa, não se desequilibrou, não se desprendeu da própria essência amorosa. 

E, finalizando este despretensioso artigo, desejo ainda relembrar uma das mais bonitas passagens do Evangelho de Jesus, no qual os evangelistas narram Sua aparição aos discípulos estupefatos, dias após a morte na cruz. Naquela oportunidade, após ter sido abandonado por 11 dos 12 amigos hebreus, durante toda a caminhada de dura prova até o Calvário, sendo por fim erguido na madeira e pregado como um ladrão comum, sorriu aos discípulos, dizendo, apenas: “A Paz de Deus seja convosco!”…



Nada de muxoxos, reclamações ou cara feia. Nada de desapontamentos. Apenas amor nos olhos, na fala e no coração. 

Eis a sublime mensagem do Messias, nesta passagem: Perdão, compaixão, resiliência…amor…

Aliás, caso não fosse essa a postura do grande Mestre, o que seria do cristianismo?
Vale refletir…


Referências:

DIAS, Haroldo Dutra. Novo Testamento- Evangelho de João 20:19-23 cf. Lucas 24:36-43. Brasília (DF) Brasil: Conselho Espírita Internacional, 2010.

KARDEC, Allan.  O Livro dos Espíritos. Trad. de Guillon Ribeiro. 57. ed. Rio de Janeiro, FEB , Parte 2ª. Item 100, p. 87, 1983.
________________O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap.14 – Honra teu Pai e tua Mãe. I – A Ingratidão dos Filhos e os Laços de Família, Rio de Janeiro, FEB, 1983.



HANSON, Rick. O Cérebro de Buda: Neurociência Prática para a Felicidade. Editora Alaúde, São Paulo, 2012.

Um comentário:

Pedro Bassetto disse...

Prezada Claudia Gelernter.
Muito interessante este tema a respeito da ingratidão, sendo que a gratidão é um sentimento que enobrece aquele que o pratica, no Evangelho de Jesus ,segundo Lucas cap.17:11 temos o exemplo dos dez leprosos curados, somente um voltou para agradecer á Jesus pela cura, o qual era samaritano, os demais saíram correndo sem ao menos voltar-se para agradecer ao Mestre este beneficio recebido. Assim geralmente somos todos nós, queremos e pedimos a Deus a cura dos nossos males, mas após curados esquecemos da gratidão que devemos ter para com nosso Pai que é Deus!!